1
-- Eu sou um filho da puta! - Ele dizia, em voz alta, pra si mesmo. -- Um filho da puta.
Caminhava pelo pavilhão, outrora cheio e agora limpo, com passos consistentes em direção à saída. Chovia. Pingos grossos, e assim mesmo, ele se pôs em direção ao carro. Saiu sem pressa do estacionamento, sem pressa da vida, que se mostrara tão desgraçada naquele dia.
Pois esse moço, aos olhos de alguns um homem de sorte (a ponto de despertar invejas), foi achar bem nesse dia, a mulher de sua vida, jogada na chuva, sem eira nem beira, encharcada. Ele parou próximo à garota e soltou, sem vacilo:
-- Entra aí.
A garota achou, de início, se tratar de sequestro ou assalto, visto o estado da cidade do Rio de Janeiro. Mas não viu armas na mão do sujeito, a quem respondeu:
-- Por que eu entraria?
-- Eu pago. - Foi a resposta. -- Trepo, pago e você vai embora. Te deixo na porta da estação.
A garota entrou no carro e se acomodou no banco do passageiro, profissional:
-- Tá esperando o quê? - Perguntou.
Bernardo concentrou-se no volante e seguiu, parando ao encontro do primeiro muquifo onde houvesse uma cama. Os dois subiram as escadas, estreitas, sem dar uma palavra sequer. Pararam em frente à porta, ele com a chave, ela olhando pra janela, tentando conter a chuva. O quarto era realmente um muquifo. E não tinha cama. Paredes descascadas, chão de madeira gasta, poucos móveis e um colchão estendido no chão, coberto por um lençol verde. O único oásis.
-- Tira a roupa. - Ele disse.
Ela obedeceu, com movimentos sóbrios. Ele, no banheiro, em frente ao espelho, arrancou a gravata e atirou-a no chão, quase sem perceber. Já nua, ela o encarava, anesteziada.
Quando Bernardo deparou-se com o corpo daquela menina, engoliu a seco a saliva grossa e manteve a postura firme (ou pelo menos, tentou). Seguiu em direção à garota, desabotoando a camisa e o feixo da calça, quase que simultaneamente. Ela permaneceu imóvel. Bernardo pôs-se enfim diante dela e viu: O entreabrir de lábios o convidava. Logo.
2
Foi uma transa crua, cruelmente honesta. Entregue, intensa. Poucos sons, alguns gemidos. Olhos ora abertos, ora fechados, cerrados, de dor e prazer.
3
-- Você tem um cigarro?
Do box, ela respondeu:
-- Eu não fumo.
-- É, eu também não. - Resmungou ele, do outro lado. -- Aonde você quer que eu te deixe? - perguntou, tirando da carteira uma razoável quantia em dinheiro.
-- Se possível, no mesmo lugar onde me pegou mais cedo. - Ela respondeu, saindo do banheiro enrolada na toalha, também verde.
Se encararam mais uma vez e não pareciam dois completos estranhos.
-- Seu dinheiro. - Ofereceu.
-- Não sou prostituta. - Foi a resposta.
Ele riu e insistiu:
-- Qual é, garota? Pega o teu dinheiro.
-- Não sou prostituta, fica com o seu dinheiro.
Ela não parecia se incomodar com a situação, a voz caminhava entre o leve e o denso. Esquivou-se do olhar de Bernardo e seguiu até o colchão, catando suas roupas, ainda molhadas, pelo caminho. Bernardo parecia não entender:
-- Como assim, não é puta? - Questionava.
Ela vestia a roupa, apenas.
-- Não se vista ainda.
A frase soou como uma ordem e ela prontamente largou a calça, uma perna vestida, outra não. levantou o rosto e viu Bernardo em pé, sério, indagando. Sóbria, ela repetiu mais uma vez, devagar:
-- Não sou prostituta.
Ele a encarava com a mesma sobriedade no olhar e na voz:
-- É? Então me responde uma coisa: Por que você entrou na porra daquele carro?
Ela desvencilhou-se por completo da calça e respondeu:
-- Eu não sei.
Bernardo riu, achando graça à toa:
-- Não sabe? Quer dizer que você andava sozinha, na rua, à noite, viu um cara parar o carro e te oferecer dinheiro pra trepar e, mesmo não sendo puta, entrou no carro e saiu com ele?
-- Quer dizer que você pára o seu carro, na rua, à noite, vê uma menina que veste calça jeans e bata, carrega bolsa, garrafa d'água e livros, acha que ela é prostituta e oferece dinheiro pra trepar com ela?
Ele ficou em silêncio, descrente.
-- O que te levou a crer que eu era uma? A roupa? Acho que destoa um pouco do vestuário de uma puta.
-- Você só pode estar curtindo com a minha cara!
-- Se eu realmente quisesse curtir com a sua cara eu pegava a sua grana e ia embora, com a certeza de que nunca mais o veria.
Bernardo ria, tenso. Um riso nervoso. Ela estudava sua reação, preocupada:
-- Olha, tudo bem. Eu posso ir daqui até a estação. Você não precisa se preocupar.
-- Por que eu me preocuparia com você, garota? Você é uma doida. Maluca.
Bernardo foi até a janela, fechada. A chuva ainda caía forte.
Ela vestiu-se rapidamente e pôs-se de pé, pronta a ir embora. Olhou-o, de costas ainda, e a chuva, amedrontadora. Respirou fundo e despediu-se:
-- Foi bom pra mim também.
Catou a bolsa do chão e caminhou em direção à porta. Parou, olhou para Bernardo mais uma vez, virou-se e continuou o trajeto. Já na porta, com a mão girando a maçaneta, perguntou, incrédula:
-- Vai mesmo me deixar ir embora?
Dessa vez foi ele quem a mirou, desdenhando. Voltou a olhar a chuva, resignado. Ela percorreu o olhar por todo o quarto, mordendo lábios, como se achasse duro despedir-se daquele lugar, que conhecera há pouco. Respirou, fechou os olhos e a porta.
4
Ele permaneceu na janela, forçando a vista, na espera de ver a garota sair em meio àquela tempestade. Aguardou alguns minutos e nada. Virou-se em direção ao colchão, com a intenção de dormir por ali mesmo (visto a chuva, sem trégua).
Bernardo surpreendeu-se ao ver, atônito, que a garota se mantinha ali, de pé, como se houvesse criado raiz em frente a porta. Estava estupefato: Primeiro, por sua atitude inconsequente de (ou ter a intenção de) pagar por algo que sempre teve de graça, e aos montes. Segundo, por realmente desacreditar que uma pessoa mentalmente sã, pudesse fazer o que aquela menina fez. Ou era louca ou completamente despida de temores. As duas opções o faziam crer que definitivamente, aquela não era uma garota trivial.
Bernardo fitava-a, pondo em ordem os pensamentos, tentando encontrar um sentido para a situação.
-- Algumas coisas não fazem sentido.
-- Qual é o seu nome? - Bernardo tinha as mão na cintura, numa postura incisiva.
-- Chloe.
-- Chloe? Francês?
-- Grego.
-- Bernardo. - Concluiu a apresentação. -- O que significa?
Ela fechou os olhos, buscando:
-- Folhagem viçosa. Ou algo parecido. - Recuperou.
-- Viçosa? Isso explica alguma coisa?
-- Bernardo, - tentou explicar, mãos na cintura (como se o imitasse), postura de princesa rebelde, emudecendo de vez em quando -- eu realmente acho que fui um tanto quanto inconsequente durante essas horas em que estivemos juntos. Eu não sou prostituta. E pra ser honesta, não sei porque entrei no seu carro. Pra ser mais honesta ainda, não sei por que ainda estou aqui. Talvez por causa da chuva. Não sei. O fato, é que se você não me matou até agora, provavelmente não é um assassino. Isso me deixa um pouco mais segura, já que não pretendo ir embora agora, com esse temporal lá fora. Sei que deve ser difícil compreender e aceitar, mas eu não sou louca (pelo menos nunca assumi isso). Tenho família, mas não pai, estudo e trabalho 8 horas por dia. Trivial, não?
Bernardo aproximou-se de Chloe:
-- O que você pensa que está fazendo? - Indagou.
-- Não estou pensando.
-- Eu quero saber por que você por que você entrou no meu carro.
-- Porque você pediu.
-- O que te fez acatar?
-- Eu não sei.
-- Como não?
-- Por que queria transar com uma prostituta?
-- Porque não teria de perguntar o nome dela.
-- Só por isso?
-- Não te devo satisfações.
-- Não disse que deve.
-- Eu quero entender o que te fez entrar na porra do carro...
-- Entender pra quê? Entender atrapalha.
-- E fingir que era puta.
-- Não disse em instante algum que era puta. Não disse que aceitaria seu dinheiro.
-- Mas entrou no carro.
-- E daí?
-- Você não me conhecia.
-- Te conheço agora?
-- Mais do que qualquer pessoa.
-- Isso é ruim?
-- Mais do que pode imaginar.
-- Por que é tão ruim?
-- Porque eu não sou perfeito.
-- Claro que não.
-- Não te incomoda?
-- Por que incomodaria?
-- Porque incomoda a todo mundo!
-- Como sabe?
-- Elas demonstram insatisfação.
-- Pareço insatisfeita?
-- Se estivesse satisfeita jamais teria entrado naquele carro.
-- Então, você sabe a resposta.
Por um instante breve, houve trégua.
-- Quem te botou lá? - Insistia ele.
-- O destino?
-- Quem é você?
-- Sua salvação.
-- Você não parece um anjo.
-- Não sou um.
O diálogo, como um bombardeio, cessou e o silêncio instalou-se por um instante, até Bernardo dizer, numa urgência que só a alma (e o corpo) compreende:
-- Tira a roupa.
Os gregos não faziam obituários. Quando um homem morria, eles faziam uma pergunta: "Ele viveu com paixão?"
De Escrito nas estrelas (Serendipity, Peter Chelsom, 2001).

Foto: www.manguesecocachacaria.com.br
Quase-memórias de um bêbado
Provavelmente este texto só será publicado na segunda, quando estiver recuperado do meu porre, recobrado a consciência e parado de arrotar a fumaça das quase duas carteiras de cigarro que fumei (o detalhe é que não fumo - exceto quando bebo, e hoje eu bebi. Muito).
Me ocorreu na hora do banho, a lembrança de meu primeiro porre. Eu tinha dezessete anos, estava desesperadamente apaixonado, confuso e acompanhado de uma galera mais experiente (em farras). Ingredientes perfeitos.
Me lembro como hoje (quase): Naquele dia, dois terços da sala faltou à aula - salve engano numa quarta feira - para farrear e curtir a vida como delinquentes.
(Minha turma de segundo ano tinha tipos muito diferentes, o que era enriquecedor e divertido). Fomos juntos pra casa de uma de nossas colegas, nas proximidades da escola. Cada um levaria bebida, comeríamos qualquer coisa. Foi uma excitação nova, sensação de transgressão. Àquela altura já planejava ficar bêbado. E fiquei. Quase entrei em coma alcoólico.
Não demorou. Pouco depois de ter chegado já estava completamente tonto (depois das dancinhas típicas de gente bêbada e do desbocar). Lá estava eu, tentado agarrar uma pobre coitada (no fundo ela queria, mas não ia dar o braço a torcer - preferia me pegar sóbrio) no banheiro. Estávamos encharcados, embaixo do chuveiro, nem sei como fomos parar lá. O fato é que eu, que ganhara durante aquele ano uma imérita fama de frouxo, naquele instante já era conhecido como taradinho e outros nomes afins.
E assim prossegui, durante toda a tarde louca que tivemos. A certa altura, juntamos todos num quarto e conversávamos a respeito de tudo. Foi o ponto alto: discursei sobre a personalidade de cada um dos que ali estavam e não parava de ouvir gargalhadas (reflexos do meu tom irônico em tratar de assuntos sérios). Resultado: paguei micos diversos e fui a sensação da festa. Até não mais me aguentar e cair de bêbado, literalmente. Tiveram de me trocar, me colocar na cama.
E o resto não é mais interessante.
Felipe baruc é um pseudo-escritorzinho de subúrbio que não tem vícios. Exceto o de se apaixonar e não ser correspondido, razão de todas as suas bebedeiras ocasionais.
"Quem sabe a vida é não sonhar?"
Cazuza e Frejat, em Malandragem.

Ilustração: Encontro, Luiz Telles.
Se encontraram depois de anos, carrinhos lotados, num supermercado:
-- ?
-- ?
-- Você?
Ela riu, descompassada:
-- É, acho que sim.
-- E aí?
-- Tudo bem, e você?
-- Bem.
-- Que bom.
-- É.
Risos um tanto constrangedores.
-- Você está muito bem.
-- Eu? Gentileza sua. Você também está diferente.
-- Diferente? Um pouco mais gordo, é verdade. Algumas rugas já aparentes. Diferente mesmo.
Risos descontraídos de ambas as partes.
-- Imagina, você sempre esteve muito bem.
Silêncio. Ele pergunta:
-- Então, está morando aqui por perto?
-- É, aqui perto. Não me diga que você também?
-- Sim, aqui perto. Casado, quer dizer, junto, uma filha. A propósito, essa é minha filha.
-- É uma menina linda. Como é o seu nome? - mimando.
-- Ela não fala ainda.
-- Ah, claro. Que idiota! Que idade ela tem?
-- 1 ano e 2 meses. E o nome dela é Eduarda.
-- Bonito nome.
Mais silêncio.
-- E você? Compromisso?
-- Nenhum tipo de compromisso sério, a não ser o de não mais me envolver em roubadas sentimentais.
-- Hum...
Mais silêncio. Ele:
-- Me lembro até hoje de você. Na porta da minha casa. Se declarando.
Momento de constrangimento. Ela, em tom sereno, responde (com duas peguntas):
-- É a sua intenção? Me constranger?
-- Imagina, quê isso. Eu só...
-- Tudo bem.
-- ... Pensei que talvez aquela fosse a sua última roubada sentimental.
-- Quem dera. Sou expert em roubadas sentimentais.
-- Mas agora você parece bem mais saudável.
-- Definitivamente, algumas coisas me fizeram bem. Depois daquele período turbulento que durou um tempo, depois da declaração no seu portão, das mensagens de madrugada para o seu telefone, das ligações insistentes. Dos foras contínuos.
-- Me desculpe por qualquer coisa.
-- Você não teve culpa de nada. Quer dizer, não era sua culpa não me corresponder. Enfim...
Novo silêncio (Um pouco mais constrangedor).
-- Você realmente está muito bem.
-- Mais uma vez, obrigada.
-- Não tem de quê.
-- Boas compras, então?
-- Claro, pra você também.
Mais silêncio. Nenhum dos dois dá sinal de que vai embora. Ele respira e pergunta:
-- Eu deveria te ligar?
-- Não, definitivamente não. Não. Com certeza, não.
-- Mesmo? Talvez eu pudesse te ligar.
-- Não. Quer dizer, mesmo. Você tem uma vida confortável agora, uma família, estabilidade.
Mais silêncio e em seguida uma pergunta desconcertante. Dele:
-- Você tem tudo o que precisa?
Silêncio e uma resposta convicta. Dela:
-- Ninguém tem.
Novo silêncio.
-- Você ainda precisa de mim?
Silêncio. Descompasso. Uma certa agonia.
-- Veja, você não acha absurdamente irônico, você cruzar o meu caminho, agora, e de repente, fazer este tipo de pergunta? Isso definitivamente não faz sentido!
Eduarda dava tapinhas no rosto do pai.
-- O que é que faz sentido hoje em dia?
-- Não importa.
Silêncio. Ele:
-- Um café?
-- Hein?
-- Chá? Coca Light Lemon?
-- Não!
Eduarda ainda batia no pai. Ele tentava conter as mãozinhas inquietas da filha.
-- Me dá uma chance?
-- Você não me deu uma.
-- Eu tive medo.
-- Que bom que admitiu. Passe bem!
Ele permanecia estático. Ela:
-- Vai me deixar passar com o carrinho?
-- Vai ser como passar com um trator em cima de mim.
-- Por que você está fazendo isso? Meu Deus!
-- Você é quem tem medo, agora!
-- Não é medo.
-- Não?
A essa altura, os dois já chegavam a chamar a atenção de transeuntes. Ela:
-- Você não tem a menor idéia do que está fazendo.
-- Estou fazendo você vacilar? Talvez você ainda queira. Me queira.
-- Você já ouviu falar em bom senso?
-- Você já ouviu falar em desperdício? Foi o que fiz a minha vida inteira. Desperdicei oportunidades. Agora o destino te bota aqui, na minha frente. Linda, segura, decidida, intensa: como eu te queria naquela época! Eu não posso cometer o mesmo erro duas vezes.
-- Eu também não.
-- Por favor!
-- Eu é que peço: Por favor, saia da minha frente.
-- Não posso.
-- Por que agora? Logo agora?
-- No tempo certo.
Silêncio. Olhares. Respirações. Silêncio. Ele:
-- Me deixa tentar.
-- Pra quê?
-- Pra que eu possa descobrir o que é amar alguém. Viver um amor.
-- Que poético... Você quer me corresponder, agora?
-- Não tripudie.
Silêncio. Ela:
-- Eu tenho de ir. Não me leve a mal. Fica bem.
-- Você não vai mesmo me perdoar?
-- Não tenho o que perdoar. Você é que precisa se desvencilhar do passado. Ter coragem pra mudar o que precisa.
Ele abaixou a cabeça. Eduarda puxava a orelha do pai, como se achasse um brinquedinho. Foi ao bebê que ela se dirigiu:
-- Você é uma menina linda. E o seu pai realmente precisa de uns puxões de orelha. O que prova que você também é esperta.
Olhou-o mais uma vez. Ele:
-- Toma cuidado, viu? - a expressão era de zelo.
-- Cuidado com o quê?
-- Com tudo.
Ela riu, complacente, e saiu, empurrando o carrinho.
Mais ilustrações de Luiz Telles em www.luiztelles.com
"Tem gente que é tão pobre, mas tão pobre, que só tem dinheiro."
Pedro de Lara (1925 - 2007), artista plural e singular. Foi radialista, escritor, cantor, jurado e astrólogo, dentre outras 1001 atividades.
Ele quase não conseguia esconder seu bem querer por ela. O quase o preocupava. Ela às vezes se continha, ponderada, outras quase escancarava, inconsequente. O quase a preocupava. Um olhar mais minucioso e estariam descobertos (um descobriria o outro e todos os outros os descobririam). Sorte que no furor do século as pessoas não enxergam muito, além do próprio umbigo. "Ainda bem", pensavam.
Ele, de estatura baixa, com seus quase 30 anos, casado, duas crianças e uma vida pacata. Ela, prestes a completar 20, trabalhava, estudava e o amava.
Frequentavam a mesma casa (de amigos e parentes, em geral), conversavam e até brincavam (ele, sempre tão impetuoso - chegou a queimá-la, uma vez, com uma panela. Ela, revidava com tapas e xingamentos).
Ela, uma vida consumida e desgastada pelas emoções, sempre tão à flor da pele. Que maluca! Maluca desde sempre. Caótica (e, como o caos, bela e intensa - embora perturbadora). Tão emotiva (que chegava a ser boba), tão sensitiva (que chegava a dominar o mundo, quando o mundo a percebia). Tão decidida (chegava a entusiasmar), tão decadente (chegava a causar pena).
Ele, tão ingênuo (apesar da libertinagem e safadeza), de caráter tão firme (apesar dos desvios). Tão cheio de valores e de trabalho (como trabalhava, o homem!).
Ela, tão disposta para o amor e os perigos.
Ele, tão equilibrado, sensato e conveniente.
(Mas o diabo do homem, às vezes arranjava um olhar de menino. Carente. E assim andava pelos cantos. Ela, chafurdada na lama da paixão (se pudesse) o consolaria, o respeitaria. Lavaria as cuecas e os calçados, prepararia o café e o jantar. Assim, Amélia. E quando nos tempos de lascívia - tão comum nos jovens - o vendaria (com a gravata, como vira num filme) sentaria em seu colo e lhe mordiscaria a orelha. Beijaria-lhe a boca. E o corpo. Faria-o gozar (pra ele) de formas tão inéditas e tão boas. O pobre: tinha malícia e ainda inocência. E a deixava encantada).
Mas de um amor assim, tão confuso e tão estranho, feito de impossibilidades, não se espera nada além da morte (se não de todo, de um pouco, de um pedaço).
Tão diferentes, tão iguais.
Não convencionais.
E realmente não convinham. Nunca convinheram, nunca consumaram aquele sentimento. Nunca souberam realmente o que eram um pro outro (creio eu - palpitando de intrometido - que eram o mundo. Ele o dela e ela o dele, só que nunca perceberam).
Enfim, morreram (deixando órfãos e viúvos). Velhos, bem sucedidos (cada qual de acordo com suas ambições).
Sofridos. Por não terem amado (permitido). Por não terem vivido.
As mulheres esperam que nós, homens, jorremos virilidade e segurança. Como fazer isso se estamos prestes a perder a cabeça? Mulheres, se ainda não perceberam, esclareço: nós somos o sexo frágil. E estamos perdidos como se estivéssemos em meio a um furacão, tentando desesperadamente encontrar abrigo.
Um homem não se faz sem uma mulher em seu caminho (a começar pelo ato de parir). Como esperar que façamos algo que preste de nossas vidas castigadas pelo trabalho e pelo peso de ser homem em pleno século 21 e suas convenções, duramente impostas pela sociedade sem misericórdia em que vivemos? Quem foi que deixou que chegássemos a esse ponto? tenho de descobrir, preciso dividir a culpa com alguém.
Às vezes penso que Deus se compadece de nossa causa e aos bons exemplares da espécie, reserva uma mulher graciosa e disposta a nos tornar melhores.
É essa a quem procuro com olhar atento quase que diariamente, nas idas e vindas que a gente faz. Talvez a encontre. Provavelmente quando deixar de procurá-la, já que o destino fica, a cada volta completa dos ponteiros do relógio, mais irônico, como se zombasse de nós, meninos, tão pequenininhos.
A cada instante que passa, tenho a sensação cada vez mais nítida, de que fico mais perdido (não é à toa que a expressão "desconcertado" nunca mais saiu do índice meu humor, aqui do barefoot). E agora, ao escrever, sinto que, aos poucos, vou perdendo a identidade e que aquele garoto que decidiu criar um blog, agora está mais interessado em divulgá-lo (ainda que não tenha o que dizer). É o imediatismo despudorado de quem quer reconhecimento. "Pra quê?", me pergunto e me confundo ainda mais.

Em comum na voz dos dois, havia o tom de sobriedade:
-- Você sabe que o que estamos fazendo é errado, não sabe?
-- Sei.
-- Que não deviamos fazer isso, não sabe?
-- Sei.
-- Então, por que estamos fazendo?
-- Não sei.
Silêncio.
-- Eu sei. Talvez eu goste de você. De estar com você.
-- Talvez, é?
-- Não sei. - arfou - Talvez eu goste de você até mais do que gosto de mim.
-- Isso não é bom.
-- É... - concordou - Eu sei.
E buscavam compreender o que viviam, confusos por saber pouco e sentir muito.

Foto: divulgação/unieuro.edu.br
"Lembrem-se que não existem perguntas indiscretas, existem respostas indiscretas."
Pedro Bial, jornalista, desinibindo o público em palestra para jovens estudantes do ensino médio, realizada pelo Centro Universitário Unieuro, em Brasília, durante os dias 30 e 31 de outubro de 2007.
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