Mudanças

Cris, André, Thays, Kelen, Aline, Adriano, Tina e todos os que passaram por aqui, sempre deixando mensagens carinhosas e estimulantes. Surge agora um novo espaço, pulsando, trazendo coisas novas e melhores. Espero contar com todos vocês no meu novo lar: afinal, as mudanças são bem-vindas - sempre - e as pessoas que nos apóiam e nos incentivam a sermos melhores, também. Adorarei recebê-los.

Desconcertado, querendo provar da vida intensamente,

Felipe.

www.felipelimadescalco.blogspot.com

Muita água

Ilustração: The girl loves the sea

Ouço uma história:

A senhorita Bar decidiu que não iria passar o dia dos namorados - mais um - sozinha. Por isso, maquiou-se, vestiu a melhor roupa que encontrou no closet e usou as jóias mais delicadamente sofisticadas de sua coleção. Vestida para matar, matou-se, num banho de mar sinistro e triste, muito triste. Uma história triste de loucura e solidão.

A descoberta do dia

Os narcisistas são idiotas que adoram ser idiotas.

Cristo contra a dengue

Já que as autoridades não fazem a sua parte:

IS NOT A GARBAGE CAN!

Dia Mundial do Meio Ambiente e repito o que disse à Ana Maria Bahiana em seu blog:

Tomara que nosso mundo ainda possa nos aguentar por mais alguns anos. Tenho muitos planos que dependem do tempo para se concretizarem. Às vezes, ao vermos absurdos do tamanho da cidade do Rio de Janeiro, tenho medo de que não dê tempo.

Faço um convite à reflexão sobre nosso desperdício, nosso egoísmo e me pergunto: Gostaríamos de chegar até onde esse descaso com o nosso planeta irá nos levar?

Esta semana

Um filme: Totalmente Apaixonados (Trust the man, no original). O título em português engana e o filme vai muito além do que se supõe pela capa do DVD.

Uma música: "Enquanto isso, as coisas tem sido difíceis: morando no segundo andar, vivendo sem um jardim. E pode levar anos atér o dia em que meus sonhos coincidam com o meu salário".

Mushaboom, de Feist.

Um lugar para passar horas: A cama.

Um endereço na web: www.revistacinetica.com.br

Caminhos

"O caminho mais fácil nem sempre é melhor que o da dor."

Trecho de Lama, da banda paulista Luxúria. Clique aqui para ver o videoclipe bacana da música.

A descoberta do dia
O inconformismo é o motor das grandes mudanças.
Lembrar é enfrentar

No dia 18 de maio de 2008, vários blogs na internet fizeram uma espécie de post coletivo numa ação criativa contra a violência sexual contra crianças e adolecentes. Por lapso, eu, que tomei conhecimento do convite para o post coletivo antecipadamente, não participei. Chateado e com esperança de que um dia essas palavras possam servir de conforto ou alerta para alguém, faço agora a minha parte; o mínimo que posso fazer para sentir que não cruzei os braços.

Quando eu tinha por volta de sete anos de idade, num desses mistérios que Deus guarda, para quem sabe, nunca revelar, Ele permitiu que eu vivesse essa experiência. Não lembro de detalhes, nem me esforço. O que sei é que durante anos (e possivelmente ainda hoje), o abuso, a falta de um pai e de uma família estruturada, deixaram-me alguns traumas. Não sei por quanto tempo durarão. Não sei exatamente quais foram os prejuízos, mas passei da fase de culpar a Deus. Não sinto remorso, mágoa, raiva ou qualquer outro sentimento parecido, só a sensação de que se não tivesse passado por uma experiência como essa, as coisas seriam diferentes, talvez melhores. De toda forma, encaro como se minha história não fosse minha sem esse episódio.

Passar por algo assim, de alguma forma, me ajuda a ser o homem que sou hoje. E confesso que, por vezes, num desses dias frios em que a vida parece ser diferente dos outros dias, sinto-me orgulhoso, muito orgulhoso de mim, do que conquistei e ninguém pode levar. Feliz por saber que todos os dias tenho a oportunidade de recomeçar e a liberdade de tropeçar novamente, se indispensável. Minha tia esteve em casa há alguns dias e, numa conversa de poucas palavras, ela disse-me que uma outra tia preocupava-se muito comigo, queria saber como estava, etc. "Diz pra ela que estou bem. Que todos os dias descubro uma coisa nova e que não há por que se preocupar. Eu vou sempre ficar bem", respondi, tranquilo.

E de verdade, não acredito que vá ser diferente.

Se você quer saber mais sobre violência sexual contra crianças e adolescentes, existem diversos endereços na internet que tratam do assunto. Um deles é o site Brasil contra a Pedofilia. Acesse.

Boa sorte, Eduardo

Quando Eduardo me abordou, já passavam das onze da noite. Ele me olhou e veio se aproximando. Tirei os fones de ouvido para poder escutá-lo e ele me disse, sem rodeios: Era soropositivo e álcoolatra, tinha vindo de São Paulo e não tinha como voltar. Morava na rua, já havia passado por abrigos e precisava de dinheiro ("Qualquer coisa ajuda").

Tirei do bolso a única coisa que eu podia dar a ele naquele momento: Uma nota de dois reais, que se ele quisesse poderia usar para comprar o pão ou a cachaça do dia seguinte. "Mais de um ano e meio sem beber e foi só botar um gole de cerveja na boca, que não consegui mais parar", me contou. "Você vai conseguir", eu disse. "Falta só atitude da minha parte", ele completou. Perguntei se sua família era de São Paulo e ele afirmou que toda a família estava lá.

Tirou do bolso uma espécie de laudo, com assinatura e carimbo do GDF, que dizia, entre outras coisas, que durante todo o tempo em que Eduardo esteve em observação, ele permaneceu alcoolizado, morava mesmo nas ruas da capital do país (a Capital da Esperança, ouvi depois um político dizer, no rádio) e que o órgão do governo responsável, não tinha verba para mandá-lo de volta a São Paulo. Ele aproveitou a deixa e discorreu sobre o descaso do governo com pessoas que, como ele, não encontram a sorte que vieram buscar. Nesta hora apareceu uma senhora baixinha, simpática, vendendo jujubas a 0,25 centavos. "Vou dar 0,50 centavos pra esta velhinha que é pra Deus me dar de volta. Eu acredito em Deus", ele disse, tirando do bolso umas poucas moedas. "Boa sorte", foi a última coisa que eu lhe disse. Antes de ir, Eduardo falou mais alguma coisa, que não entendi, por fim. E eu, tão descrente de Deus naquela noite, fiz, antes de dormir, uma oração pelo Eduardo.

Uma nota de dois reais, um desejo de boa sorte, uma oração e este texto, Eduardo. É tudo o que posso te dar, me desculpe.

A descoberta do dia
No hemisfério norte, os redemoinhos na água acontecem no sentido horário, inverso ao sentido dos nossos redemoinhos. Ou será o contrário?
Solidões interativas

 

Ilustração: Lonely

Eduardo quer conversar apenas com as meninas da sala. Mara, 42 anos de idade, quer falar com mulheres. Murilo, 23, quer falar com os caras ativos da sala. Homem maduro quer encontro com passivos bem "putinhas", Casado, 31, 20 centímetros, prefere os passivos discretos. Raul é casado e adora uma "sacanagem legal". Surgem vários querendo "uma real, pra agora, sem enrolação!", pedem. Drica, travesti (tão na moda), quer conversar com "pessoas que saibam curtir a vida, dançar, aproveitar". Um poço de simpatia, a Drica.

Personagens como esses são, na verdade, pessoas reais que embarcam com nomes falsos e outras mentiras, frequentemente, num dos chats de voz mais populares da cidade.

Muito educadamente, converso com vários deles: "Mas e aí, resolveu ligar por quê?", pergunto. "Ah, sei lá, nada pra fazer, ninguém pra curtir, paradeira", reclamam a maioria. Um cara me conta que a esposa não aceita a maioria das sugestões que faz na cama: "Acho que ela já perdeu o tesão, mas não por minha causa", diz. "Mas e você? Procurando o quê?" ele pergunta. "Nada", desconverso, "Nada pra fazer, sabe né?". O tal cara faz uma cantadinha barata e vejo que chegou a hora de pular fora: "Ih, foi mal, tá chegando gente aqui, tenho de desligar". Não desligo. Saio da conexão com o taradinho e tento arrancar mais declarações dos outros participantes. Mais cantadas. Faço sucesso com a idade e com a voz, tanto com os homens quanto com as mulheres da sala (as mulheres são bem mais sutis e interessantes). Digo que não estou a fim de sexo naquela noite, só de conversa. "Liga pro CVV, então", diz um. "Não é possível que só tenha gente querendo trepar, aqui", desabafo com uns. "É sim", me respondem. Acho um minguados, que topam conversar e descubro que ali, eles querem é encontrar o verdadeiro amor. "Acho difícil", falo pra uma senhora que pede meu telefone, sem revelar que entrei lá com a mesma esperança. Invento um número qualquer e digo até mais.

Desligo e fico me achando um idiota por um bom tempo. Olho pela janela e vejo um mundo lá fora, mas com oportunidades escassas por enquanto. "Vou tomar banho", resolvo enfim. E no banho penso em como nós somos sós. "Um por todos pode até existir, mas todos por um parece-me um ideal utópico demais", concluo. Reflexões rabugentas do alto de meus 19 anos.

A prova

Foto: www.scc.rutgers.edu/.../images/classroom.jpg

Brasília, sexta-feira, 18 de abril de 2008. Véspera de feriado e às 19h30min encaro uma prova de Sociologia, quando deparo-me com uma questão e a seguinte proposta:

Apresente o conceito de imaginação sociológica, em seguida explique por quê o estudo do suicídio desenvolvido por Émile Durkheim se enquadraria nesse conceito.

Desespero-me (penso em suicídio), e, sem mais ter o que fazer, cretinamente escrevo:

"Sabe, nunca ouvi falar em Émile Durkheim. Imagino que ele já tenha morrido, mas enquanto vivo, contribuído muito para o estudo da Sociologia.

Caro professor, não me leve a mal, mas percebo agora que as aulas em que dormi realmente fizeram-me falta. Bom, tarde. O fato é que sairei daqui e irei direto ao Google, procurar conhecer o trabalho de Émile e, quem sabe aí, compreender o conceito de 'imaginação sociológica' e como o estudo de Durkheim se enquadraria em tal conceito.

Ah, importante: Realmente acredito que o processo de socialização ao qual estamos submetidos não acaba nunca, sendo assim, enquanto viver, aprenderei (espero). A propósito, tive uma infância feliz, apesar de tudo e travo uma luta feroz, todos os dias, em busca da honestidade em que tanto acredito (e em seu poder). Desta forma, peço novamente que não me leve a mal, não estou lhe implorando por nenhum pontinho a mais, além do que eu mereço (e jamais duvidaria de sua postura ética). Acho que foi só um brainstorming.

Passar bem."

Resultado: 1,6 numa prova que valia 5 pontos. 6,6 na média final. Alguém daria crédito a um jornalista tão cara-de-pau?

Quando somos eternamente responsáveis pelo que cativamos

Ilustração: Despair

Só havia o desespero:

-- Alô?

-- Não desliga.

-- O que você quer?

-- Uma chance.

-- Mais uma?

-- Por que nós não conseguimos conversar?

-- Porque já dissemos tudo o que precisávamos.

-- Não é verdade.

-- Claro. Há coisas que não podem ser ditas, não é?

-- Você está sendo imatura.

-- E você, covarde.

-- Você não quer me deixar.

-- Já deixei.

-- Mas você não quer.

-- Que diferença faz?

-- Você é teimosa, caramba!

-- Eu? Quem é o rei da resistência? Quanto tempo eu tive de esperar até que você decidisse parar de lutar contra o que sentia? Fui eu quem chorei por anos, quem quis cometer suicídio, quem saiu por aí transando com qualquer um que cruzasse meu caminho, em busca do que você não podia, não queria me dar.

-- Ah, por favor, não começa!

-- Foi você quem começou.

--Não dá pra conversar com você.

-- Você não devia ter ligado.

-- Não devia mesmo.

-- Definitivamente, não.

-- É que eu te amo.

-- De que adianta?

-- Não basta?

-- Não, só amor não basta.

-- O que você quer mais de mim? Pelo amor de Deus, me diz, o quê? Eu deixei de lado meu orgulho por você! Eu fiz escolhas perigosas por você. Não basta? Eu sou um homem inseguro agora, dependente de alguém que me perseguiu, que me desestabilizou, que virou o meu chão!

-- Por que você está gritando?

-- Porque eu não me conformo em amar alguém que se esforça tanto pra ser infeliz, que se vitimiza a todo instante, que precisa culpar todo mundo à sua volta pelas suas neuroses tão inconvenientes e batidas! Você me faz mal!

-- É por isso que estou deixando você.

-- Porque eu te digo a verdade?

-- Porque eu te faço mal.

-- E daí?

-- Eu não suporto machucar mais alguém.

-- O estrago já está feito, continua!

-- Não pode ser assim.

-- Você me ama?

-- Sim.

-- Ainda é apaixonada por mim?

-- Sim.

-- Você sente tesão por mim?

-- Sim, sim! Quantas vezes você quer ouvir sim?

-- E quando você ama, você deixa?

-- Sim.

-- Deixa?

-- Se você ama de verdade, você deixa.

-- Não deixa, não. Eu vou ficar pior sem você.

-- Você vai superar.

-- Como você sabe? Eu posso não resistir e me atirar na frente de um ônibus. Ou ir para o centro e pular de um prédio. Parar de comer. Fica. Eu vou ficar pior sem você, fica.

-- Eu te canso.

-- Fica.

-- Eu te exponho.

-- Fica.

-- Eu confundo você.

-- Por favor, fica.

-- Eu não te compreendo, não te divirto.

-- Fica.

-- Eu não consigo fazer você feliz.

-- Eu não me importo, eu não preciso. Minha história não existe sem você. Fica.

A qualquer preço

Ele tocava o corpo dela (com a verdade que uma paixão que não cabia em seu peito exigia). E tomava-a, sentia-a (com a vontade de quem demorou a ter o que queria). Com a ânsia e a tensão de enfrentar o medo.

Era tanto sentimento que eles não sabiam se sobreviveriam os mesmos depois de tão bem se conhecerem. E fizeram-no de tal forma, que não existia pecado, mas somente amor: incontrolável, intenso, cru, sem artifício algum, mas tão e somente amor. Como se não houvesse fim ou recomeço, completos de tal maneira que a morte poderia, se chegada a hora, levá-los da maneira que fosse (visto que a eternidade se apossara dos dois e nem compreensão e nem sentidos ou lágrimas ou qualquer outra coisa existiriam).

Somente a vida, em início, meio ou fim como deveria ser em todo o tempo: intensa, a qualquer preço.

A vida de Aline Fassa em onze palavras:

Inocência. Bebida, sexo, música, dança. Rebeldia, inconsequência. Loucura, sofrimento. Restituição. Dificuldade.

Aline Fassa é uma mulher como nenhuma outra. Vulcânica, intensa, está acima do peso, mas feliz, casada com o homem que marca a restituição em sua vida e em plena atividade (num trabalho que às vezes cansa sua beleza).

A qualquer preço

Ele tocava o corpo dela (com a verdade que uma paixão que não cabia em seu peito exigia). E tomava-a, sentia-a (com a vontade de quem demorou a ter o que queria). Com a ânsia e a tensão de enfrentar o medo.

Era tanto sentimento que eles não sabiam se sobreviveriam os mesmos depois de tão bem se conhecerem. E fizeram-no de tal forma, que não existia pecado, mas somente amor: incontrolável, intenso, cru, sem artifício algum, mas tão e somente amor. Como se não houvesse fim ou recomeço, completos de tal maneira que a morte poderia, se chegada a hora, levá-los da maneira que fosse (visto que a eternidade se apossara dos dois e nem compreensão e nem sentidos ou lágrimas ou qualquer outa coisa existiriam).

Somente a vida, em início, meio ou fim como deveria ser em todo o tempo: intensa, a qualquer preço.

Fotos: fotosearch.com

A vida de Kelen Cristine em onze palavras:

Mágoa, tristeza, revolta. Aventura, sinceridade, amor. Tragédia, dor. Deus. Conquista. Felicidade.

Kelen Cristine é uma Barbie hiperativa, bem-humorada e amarrada há cinco anos no negão que ela adora.

Conversas

Pequenos retratos do cotidiano

-- Você sabia que a água do planeta vai acabar porque as reservas de água não são suficientes para suprir a necessidade de desperdício do ser humano? - Digo para uma colega que lamenta-se por nada ser como gostaria. E continuo: -- A ONU teme que a dedicação à produção de biocombustíveis atrapalhe o cultivo de vegetais e contribua para uma crise na produção de alimentos. E minha sobrinha de um ano e meio aprendeu a jogar lixo no chão! Você tem mesmo de se preocupar com a sujeira da tampa do saleiro?

E então ela me responde, simples:

-- Felipe, pára de querer aparecer!

É, parei.

 

Fotos: fotosearch.com

Uma vida em onze palavras:

Precocidade. Independência. Traumas. Leviandade, arrependimentos. Mudanças. Paixão. Verdade. Amadurecimento. Honestidade e busca.

Felipe Lima é o caos em forma humana, não há dúvida.

A descoberta do dia
Há coisas que não precisamos escutar, mas que precisam ser ditas.
Foi só por um segundo

-- Se você quiser eu lhe dou abrigo.

Sobre plenitude, desejo e intimidade

E então ela diz, sem noção da sua grandeza, deixando-o amedrontado:

-- Por que você não chega mais perto? Dentro.

Conversas

Pequenos retratos do cotidiano

E então eu pergunto: -- Mas por que ele te faz feliz?

E ela me responde com um sorriso que toma todo o rosto: -- Porque ele me faz sorrir, cuida de mim, pergunta como foi o meu dia.

-- Há quanto tempo vocês estão juntos?

-- Cinco anos.

-- Nossa! - exclamo -- E por que não se casam?

-- Por que a gente não tem dinheiro...

-- Vivam de amor! - Digo.

-- Não é assim, Felipe!!! Sabe, eu conheço gente que namora há anos, casa, tem filho e se separa.

-- É verdade. Então não casem.

Isto é

Original: Todos os blogs da home da Revista Trip. Gente afinada, cosmopolita, diferente, trazendo sempre algo interessante para o cotidiano de nossas vidas.

Lemos e não entendemos
por Nina Lemos

Zodi Rolê
por Carlinhos Zodi

Blog da Redação
Nossa equipe solta o verbo e umas informações sigilosas

Só em NY
por Tania Menai

O Tranca Rua
por João Wainer

Discofonia
por Guilherme Weneck

Deporter
por Bruno Torturra Nogueira

Lado V
por Arthur Veríssimo

Bookshelf/Blog
por André Felipe

A descoberta do dia

Vacas adoram sal.

Brasília (sem parar)

A idéia é simples e despretensiosa: Registrar uma homenagem à cidade, que completa 48 anos em 21 de abril (uma jovem senhora), por meio de fotografias tiradas com a câmera em movimento (a maior parte delas foi tirada assim, andando - a pé ou de ônibus). O resultado são 16 fotos amadoras, mas carinhosas com essa cidade de arquitetura tão pouco aconchegante, mas que recebe a todo momento, centenas de brasileiros prontos para continuarem andando, mudando e crescendo.

Fotos: Felipe Lima

O calçadão do Setor de Diversões Norte, sob um par de All Star verde;

E os passos apressados de todos os dias;

As luzes apoteóticas do Conjunto Nacional

(Em duas versões);

A Rodoviária do Plano Piloto

(Por vários ângulos);

À noite, um espetáculo de luzes por toda a cidade (na foto, imperceptível, o Eixo Sul);

A Avenida W3 Sul (projetada para ser a Champs-Élysées de Brasília), de dia;

E à noite;

Por fim, a cidade de barro (na periferia);

Uma árvore! (Ainda existem árvores em Brasília);

E a sombra do cara que sai por aí, com celular na mão, retradando essa cidade maluca.

A descoberta do dia

Somos melhores do que pensamos.

Sobre não envelhecer

"Fiz um acordo de coexistência pacífica com o tempo: Nem ele me persegue, nem eu fujo dele, um dia a gente se encontra."

Mário Quintana, mais uma vez.

Quintana, por que o tempo nunca encontra a Madonna?

Hometown glory

E por esta:

Adele: Dá pra acreditar que ela não tem nem 20 aninhos?

1234

Estou apaixonado por esta mulher:

Feist: "Um, dois, três, quatro, diga que me ama mais."

+ Quintana

Mario Quintana - 28-06-1987.

FELICIDADE REALISTA

A princípio, bastaria ter saúde, dinheiro e amor, o
que já é um pacote louvável, mas nossos desejos são
ainda mais complexos.

Não basta que a gente esteja sem febre: queremos,
além de saúde, ser magérrimos, sarados,
irresistíveis.

Dinheiro? Não basta termos para pagar o aluguel, a
comida e o cinema: queremos a piscina olímpica e
uma temporada num spa cinco estrelas.

E quanto ao amor? Ah, o amor... não basta termos
alguém com quem podemos conversar, dividir uma pizza
e fazer sexo de vez em quando. Isso é pensar
pequeno: queremos AMOR, todinho maiúsculo.
Queremos estar visceralmente apaixonados,
queremos ser surpreendidos por declarações e
presentes inesperados, queremos jantar à luz de
velas de segunda a domingo, queremos sexo selvagem
e diário, queremos ser felizes assim e não de outro
jeito. É o que dá ver tanta televisão.

Simplesmente esquecemos de tentar ser felizes de
uma forma mais realista.

Ter um parceiro constante, pode ou não, ser sinônimo
de felicidade. Você pode ser feliz solteiro, feliz
com uns romances ocasionais, feliz com um parceiro,
feliz sem nenhum. Não existe amor minúsculo,
principalmente quando se trata de amor-próprio.

Dinheiro é uma benção.
Quem tem, precisa aproveitá-lo, gastá-lo, usufruí-lo.
Não perder tempo juntando, juntando, juntando.
Apenas o suficiente para se sentir seguro, mas não aprisionado.
E se a gente tem pouco, é com este pouco que vai tentar
segurar a onda, buscando coisas que saiam de graça,
como um pouco de humor, um pouco de fé e um pouco de
criatividade.

Ser feliz de uma forma realista é fazer o possível e
aceitar o improvável.

PS: Ah, Quintana... como discordar? As fotos, deste post e do anterior, são da home http://assisbrasil.org/joao/quintana.htm

Lazy days

Mario Quintana no seu quarto

"A preguiça é a mãe do progresso. Se o homem não tivesse preguiça de caminhar, não teria inventado a roda."

Mário Quintana (1906-1994), preguiçoso e sábio como sempre.

A descoberta do dia
Vivemos o suficiente.
+ despedida

Despedida

Rubem Braga

E no meio dessa confusão alguém partiu sem se despedir; foi triste. Se houvesse uma despedida talvez fosse mais triste, talvez tenha sido melhor assim, uma separação como às vezes acontece em um baile de carnaval — uma pessoa se perde da outra, procura-a por um instante e depois adere a qualquer cordão. É melhor para os amantes pensar que a última vez que se encontraram se amaram muito — depois apenas aconteceu que não se encontraram mais. Eles não se despediram, a vida é que os despediu, cada um para seu lado — sem glória nem humilhação.

Creio que será permitido guardar uma leve tristeza, e também uma lembrança boa; que não será proibido confessar que às vezes se tem saudades; nem será odioso dizer que a separação ao mesmo tempo nos traz um inexplicável sentimento de alívio, e de sossego; e um indefinível remorso; e um recôndito despeito.

E que houve momentos perfeitos que passaram, mas não se perderam, porque ficaram em nossa vida; que a lembrança deles nos faz sentir maior a nossa solidão; mas que essa solidão ficou menos infeliz: que importa que uma estrela já esteja morta se ela ainda brilha no fundo de nossa noite e de nosso confuso sonho?

 Talvez não mereçamos imaginar que haverá outros verões; se eles vierem, nós os receberemos obedientes como as cigarras e as paineiras — com flores e cantos. O inverno — te lembras — nos maltratou; não havia flores, não havia mar, e fomos sacudidos de um lado para outro como dois bonecos na mão de um titeriteiro inábil.

Ah, talvez valesse a pena dizer que houve um telefonema que não pôde haver; entretanto, é possível que não adiantasse nada. Para que explicações? Esqueçamos as pequenas coisas mortificantes; o silêncio torna tudo menos penoso; lembremos apenas as coisas douradas e digamos apenas a pequena palavra: adeus.

A pequena palavra que se alonga como um canto de cigarra perdido numa tarde de domingo.

Rubem Braga (1913-1990), pela Wikipedia: "Rubem Braga dava à crônica brasileira uma nova dimensão que somente os grandes escritores sabem dar: a universalidade". Ninguém discorda.

A coisa mais doce (a parte mais difícil)

Dele, já botando o capacete, pra ela, em pé, ao seu lado:

-- Toma cuidado, viu?

-- Cuidado com o quê?

-- Com tudo.

Ops, isso aqui é bem parecido com isso aqui.

Filtro Solar

Para o fim de semana (para a vida inteira):

Felipe Lima ressalta que Baz Luhrmann, além desse vídeo bacana, foi diretor de Romeo+Juliet e Moulin Rouge - Amor em vermelho, dois filmes "vibrantes". O texto, da jornalista Mary Schimich, pode ser levado pra casa por meio de:

          Livro - Filtro Solar

livro de bolso;

CD Filtro Solar

 e/ou CD, produzido por Pedro Bial. Façam bom proveito.

Fui

Um insensível retrato da despedida

-- É só isso.

-- Como assim, só isso?

-- Não tem mais jeito, acabou.

-- Acabou? É só o que você tem a dizer?

-- Hum... boa sorte?

-- Não dá pra acreditar!

-- Não tenho o que dizer! São só palavras. E o que eu sinto não mudará.

-- Por que? Me responde: Por que?

-- Porque tudo o que quer me dar é demais. É pesado, não há paz. Tudo o quer de mim? irreais expectativas. Desleais, até.

Ele, transtornado, chorava copiosamente. O rosto, vermelho e quente como pimenta.

-- Mesmo, cara. Se segure. Quero que se cure. Ó, Dessa pessoa que o aconselha.

-- O que foi que eu fiz? A culpa é minha?

-- Há um desencontro. Veja por esse ponto: Há tantas pessoas especiais!

-- Eu vou sentir tanto a sua falta.

-- Um bom encontro é de dois: Você vai achar seu par. Fui!

Com a preciosa "colaboração" de Vanessa da Mata, intérprete e autora da letra de Boa Sorte/Good Luck, canção de Sim (SonyBMG, 2007).

Pra onde correr?

O Processo de socialização das crianças do nosso século (ou seja lá o que você entenda deste texto)

A socialização de um indivíduo não é e nunca foi cabível a essa ou aquela nacionalidade, apenas. Os elementos que afetam os padrões de socialização de uma criança também não. Toda criança, em qualquer parte, passa por um processo inevitável de socialização, isso é sabido. Exatamente da mesma maneira que os norte-americanos têm sido afetados por estes elementos, o Brasil e qualquer outro lugar do mundo também têm. Os agentes socializadores que há décadas atrás eram afetados pelo início da globalização (que sim, mudou tudo desde então), transmitem hoje os mesmos valores absorvidos da realidade das vidas das pessoas que os acompanhavam quando mais novos. Dizer que a mídia influencia os infantes é cabível, mas quem são os responsáveis por ela? Pessoas que também foram moldadas para caber às exigências da sociedade? Quem culpar?

As crianças, hoje vítimas de uma sociedade cínica e hipócrita criada por nós (que por sinal, não tivemos nossas etapas de amadurecimento devidamente respeitadas) serão espelhos da realidade já assustadora em que vivemos hoje (um pouco pior, é verdade). E essa realidade, fruto do impacto dos novos (?) padrões sobre a formação social da criança (pais ausentes, falta de amparo e supervisão, um processo louco de adultização que faz com que as crianças do nosso século não saibam o que é infância), virá acompanhada de todas as implicações inevitáveis. O que se espera é uma piora gradativa de todos os males que afrontam a sociedade contemporânea: seus crimes, toda a barbárie que os cercam, todo o desespero em que vivemos. A pressa, um coração infértil (o que pode haver de pior?) e a falta de uma perna, que irá nos fazer cambalear até cair.

Foto e texto por Felipe Lima.

A grande onda

-- Eu te amo.

-- Desde quando?

-- Desde agora. Desde sempre.

-- Por que?

-- Provavelmente alguma espécie de trauma.

-- Como assim, trauma?

-- Quando meu pai me abandonou eu devia ter uns quatro, cinco anos. A falta da figura paterna durante o período de socialização que cobre toda a infância fez com que eu me tornasse emocionalmente dependente de cada homem por quem me apaixonei. É assim com você. Uma forma de manifestação deste trauma na minha personalidade.

-- Hum...

-- Às vezes eu queria perder a memória.

-- Por que, Meu Deus!?

-- Por conta do meu desespero. Talvez eu fosse mais feliz sem algumas lembranças. Eu queria que tudo fosse possível. Que o amor fosse possível, que a felicidade fosse posível, que a compreensão fosse possível, que a simplicidade, a profundidade, tudo fosse possível. Que fosse possível amar você sem perder o controle, sem querer morrer.

-- Não fala isso, é até pecado.

-- Cada pedaço de mim é pecado.

-- Às vezes eu acho que você é uma Tsunami. Devastadora, impiedosa, inquietante. Não pode caber tantos sentimentos numa pessoa tão pequena! Não é possível. Meu fusca não suporta tanta areia.

-- Eu sei ser pouca areia.

-- Tá bom...

-- Você não melhorou da gripe. Eu vou buscar um remédio pra você. Quando eu voltar você me beija como se fosse a última vez?

Eu não sei dançar
Às vezes eu quero chorar 
Mas o dia nasce e eu esqueço 
Meus olhos se escondem 
Onde explodem paixões 
E tudo que eu posso te dar 
É solidão com vista p'ro mar 
Ou outra coisa p'rá lembrar 
 
Às vezes eu quero demais 
E eu nunca sei se eu mereço 
Os quartos escuros pulsam 
E pedem por nós 
E tudo que eu posso te dar 
É solidão com vista p'ro mar 
Ou outra coisa p'rá lembrar 
Se você quiser eu posso tentar mas 
Eu não sei dançar 
Tão devagar p'rá te acompanhar
Alvin L., por Marina Lima, Não sei dançar, de Marina Lima, 1991 e Brasil de A a Z, 2003 (Coletânea).
As coisas simples

Foto: Felipe Lima

CINEMA - Juno

 

Sem tempo para escrever nada mais elaborado, indico Juno (Juno, Jason Reitman, 2007, Oscar de Roteiro original e vencedor do festival de Sundance). Nunca uma comédia romântica foi tão sensível e madura. Saí da sessão sabendo que alguma coisa mudou. Pra melhor.

A pedofilia na mídia impressa

LANDINI, Tatiana Savóia. Pedófilo, quem és? A pedofilia na mídia impressa. Disponível em: http://www.scielo.br/pdf/csp/v19s2/a09v19s2.pdf. Acesso em 21, fev/2008.

 

Cobrindo um período de cinco anos, a Bacharel em Ciências Sociais pela Universidade de São Paulo, Tatiana Savóia Landini analisou cerca de 380 reportagens publicadas pelo jornal Folha de S. Paulo (o diário de maior tiragem do país), que traziam a público casos de violência sexual contra crianças e adolescentes no Brasil e no mundo. Reportagens que tratavam de abuso sexual, pornografia infantil, estupro,  incesto, etc. Usando desse recurso, Tatiana escreveu “Pedófilo, quem és? A pedofilia na mídia impressa” um artigo em que busca compreender como a Folha de S. Paulo (e em extensão, a mídia impressa brasileira) traça o perfil dos autores de tais práticas. Durante a pesquisa, Tatiana faz diversas constatações, entre elas, a visão quase unânime do jornal, de que pedofilia e pornografia infantil são sinônimos, numa generalização preguiçosa que deixa de comparar e diferenciar outros tipos de violência sexual. Tatiana cita ainda Binard e Clouard, para quem a pedofilia teria como definição 'o desejo sexual de um adulto em relação à crianças', surgindo dúvidas contudo, se seriam apenas desejos sexuais, já que existem relatos também de tortura e até morte. Segundo vários dos autores pesquisados por Tatiana, existe um binômio - violência e mídia - e cada autor procura defender sua visão, levando em consideração, o poder que a mídia tem em transformar acontecimentos em notícias e notícias em acontecimentos. Durante a análise da autora, evidencia-se ainda uma interação entre público e veículos de comunicação, e questiona-se se o que é transmitido nos jornais, rádio e televisão induz os receptores da mensagem à prática da violência, contribuindo para o aumento dos dados que a relatam. Para Tatiana, a mídia mostra o que acontece em ambientes privados, e essas informações passam a ser de conhecimento público através do que é divulgado.

 

As Conclusões de Landini

 

Ao fim do artigo, a autora constata que o perfil traçado pela imprensa evoca o fato de que pedófilos são indivíduos de elevado poder aquisitivo em sua maioria, com boa formação acadêmica e bons empregos. O contrário ocorre no caso dos estupradores (esses, em sua maioria, pobres e desempregados). Landini usa como exemplos no artigo, casos como o do pedreiro que estuprou uma menina de dez anos prometendo casar com ela quando a mesma completasse doze anos de idade. Para o juiz, o ato foi consensual e dessa forma, não houve pena. A justiça também não vê como estupro o pai que violentava a filha de quinze anos - o mesmo responderá apenas por corrupção de menor. Tatiana conclui e aponta de forma incisiva que a mídia impressa brasileira contribui para o modo como seus leitores enxergam os autores desses crimes. O trabalho junto ao jornal Folha de S. Paulo tenta de forma imparcial estudar a violência contra o menor e o impacto causado na população, relatando muitas vezes um perfil estereotipado do pedófilo, como se houvese uma postura linear em ações desta espécie. A mídia impressa nacional mostra a existência de uma pluralidade na divulgação deste tipo de violência em especial, colocando-a ora como produto da barbárie e da pobreza ora como desvio psicológico, acentuando ainda as diferenças sócio-econômicas que sempre marcaram a sociedade.

 

Palavras-chave: Pedofilia. Mídia. Diferenças sociais.

 

Quer saber mais? Vá até o link e leia o artigo completo de Tatiana.

 

Por Felipe Lima e Márcia Casali

 

PS: A propósito, Felipe Lima sou eu.

De mudança pro novo

Um novo design rimando com todas as coisas novas que têm acontecido. Espero que percebam as (sutis) diferenças que virão com o tempo, fruto de todas as novidades que chegam e nos surpreendem.

Até breve.

Vôo
Período de turbulência.
Dormindo como criança

Ela foi dormir pedindo a Deus que houvesse amanhã. Pedindo para que a finitude do mundo e das coisas todas não nos pegasse desprevinidos e letárgicos. Pedindo com medo ("o medo não é ruim, ruim é o medo de ter medo").

Acordou querendo ser melhor e não sentir-se culpada. Por nada. Querendo perder as papas na língua e as inconstâncias demasiadas (que nos afligem, sempre).

Ela foi dormir pedindo a Deus que houvesse amanhâ.

À vida, que é maior que tudo

1

"O amor não é tudo; até é, enquanto se está amando, mas, para viver uma paixão, é preciso renunciar à própria vida, uma opção perigosa que não costuma ser eterna."

"A mãe dele, Aninha, dirigia um internato numa praia perto de Vitória. Contam as más línguas da família que, à noite, ela pegava um cavalo e saía galopando pela praia, nua. Torço para que essa história seja verdadeira."

"Para manter um mínimo equilíbrio mental, preciso ficar muitas horas do dia absolutamente só; por isso gosto de viajar sozinha, por isso prezo tanto minha liberdade, por isso cheguei à conclusão de que não nasci para ser casada. Às vezes sinto uma certa solidão, mas não é assim tão ruim. Não sei de nada melhor do que chegar numa cidade onde não conheço ninguém, sentar num café, pedir um drinque, mais outro, ficar olhando as pessoas, imaginando suas vidas - fumando um cigarro, melhor ainda. Não sei o que os meus filhos acham disso, mas mãe não se escolhe; amigos e amores também não, mas estes entram e saem da nossa vida, e é assim mesmo."

"Cansamos de ouvir nosso pai dizer que não se pode confiar no ser humano, que o amor não é eterno, que só podemos contar com nós mesmos, que é necessário ser forte e que a vida não é uma brincadeira. Se chegávamos exaustas do colégio, ele dizia que é bom castigar o corpo, andar na praia até não aguentar mais, tomar banho frio.

(...) Meu pai não cansava de dizer também, que mais importante do que os bons costumes e qualquer conveniência social, é falar a verdade, sempre; que as glórias e honrarias deste mundo não têm nada a ver com a felicidade; que nada acontece sem esforço; que não adianta ensinar, só se aprende com a vida - e apanhando. E mais: que as palavras foram feitas para esconder os pensamentos e que um mergulho no mar cura tudo, das doenças às maiores aflições. Ele estava certo em muitas coisas, mas não em todas. Da mãe de meu pai, a quem não cheguei a conhecer, aprendi que, quando cai uma chuva forte, deve-se ir para a rua e lá ficar por uns dez minutos, até se encharcar, pois faz bem à saúde. Isso eu ainda faço, e acho que a humanidade se divide em dois tipos de pessoas: as que usam guarda-chuva e as que não usam.

""Datas? mas que importância têm as datas?", foi o que ouvi a minha vida inteira. Ficou difícil, quando tive minha própria família, montar uma árvore no Natal. Até tentei, mas foi um fiasco, como tudo o que se faz sem acreditar."

"Se alguém me pergunta hoje como era minha mãe, não sei responder. Acho que ela não conseguia se comunicar, nem comigo nem com ninguém. Uma vida não vivida, penso eu. Um dia ela me contou que foi do Rio para Cachoeiro de Itapemirim, visitar a família e num determinado momento o ônibus parou para que os passageiros fossem ao toalete, bebessem alguma coisa. Ela, que estava só, desceu, sentou-se numa mesa e tomou um café com leite; e me disse que essa foi a maior aventura da sua vida. Nunca me esqueci disso."

"Mais tarde fui descobrir que sou tímida, quem diria, e me sinto desconfortável no meio de muita gente. Não sei ter relações meramente sociais: fico amiga ou não fico nada, e o tititi mundano está acima das minhas capacidades. Adoro estar nos lugares, olho tudo, sou curiosa, gosto de ouvir o que as pessoas dizem, mas, quando elas são muitas, eu preferia ser uma mosca."

2

"A vida é assim mesmo: umas coisas vão piorando, outras melhorando, o passado já foi, o futuro não existe, vamos viver o melhor do presente, e pronto."

"Vinícius foi um grande amigo; apesar de ser um intelectual de verdade, tinha tempo e paciência para ouvir problemas bobos, dar opinião sobre meus pequenos dramas amorosos. Era sempre a favor do amor: "Está apaixonada, vá em frente."

7

"Minha casa sempre foi meu porto seguro, só nela me sinto tranquila, dona da minha vida, coisa que prezo acima de tudo."

9

"Aprendi com Samuel: quanto piores estão as coisas, mais depressa é preciso voltar a trabalhar."

"Um dos primeiros que entrevistei foi Pedro Nava. Lembro bem de ele ter feito, durante toda a entrevista uma ode à juventude - sustentava que essa fase era tão importante na vida das pessoas, que antes dos trinta anos ninguém devia estudar nem trabalhar, mas apenas viver. Uma semana depois ele se matou."

12

"Acho que ser mãe é um assunto nunca resolvido."

"Às vezes fico na dúvida: não sei se não tenho personalidade alguma ou se tenho muitas, tal a minha capacidade de me virar pelo avesso."

"A vida me deu tudo o que poderia dar, de bom e de ruim. Nada me foi poupado: ela foi completa nos dois sentidos. Penso como o escritor Elie Wiesel, que um dia disse: "Depois de tudo que já vivi, nada que me aconteça poderá me fazer muito feliz, nem muito infeliz.""

"Em alguns segundos esqueci do que lembrei a vida inteira: que é preciso saber quem é o outro, o que faz, onde mora, estado civil, classe social. Ele tinha razão: estávamos sós, por que não podíamos ficar juntos? Afinal, a vida pode ser simples.

(...) Não houve preâmbulos; não dissemos nossos nomes nem contamos nossas vidas. Aconteceu o que era para acontecer, e às sete  da manhã, quando saí, ele dormia.

(...) Quando acordei, às duas da tarde, mal acreditei no que tinha acontecido. Voltei ao mesmo café, pedi um vinho e pensei: quando um homem deseja muito uma mulher, esse desejo pode despertar o desejo dela. E mais: quando isso acontece, não há nenhuma razão para que os dois resistam à pulsão da vida. Pensei também que poucos homens compreendem as mulheres; não sabem que muitas preferem ser desejadas a serem amadas. Na noite anterior eu me esqueci de quem era e nunca fui tão eu mesma.

(...) Não sei também de onde tirei coragem para tanto, mas desconfio: foi porque não pensei, não raciocinei; pensar muito e raciocinar muito podem impedir, às vezes, que a vida aconteça, e tive até medo de me sentir tão viva."

 

Da jornalista Danuza Leão, em Quase Tudo, livro de memórias que cobre 72 anos da vida da autora de "Na sala com Danuza", best seller de 1992. Quase Tudo me consumiu durante toda a epidemia (?) de febre amarela que rondou o país nos últimos dias.

Sobre perdas e recomeços (e sentidos)

"A idéia de algo que dure a vida inteira nunca me seduziu. Gosto da finitude das coisas, mas perder é não estar pronto para deixar. Nada dói mais. Por isso, todo recomeço é feito de dor pungente; daquelas que rasgam a alma. Rasgam até o ponto em que a dor dá espaço à surpresa de abrir os olhos e perceber que há um novo dia correndo feito criança (como um caderno aberto e em branco), passando e convidando à intensidade dos sentidos, que se despertados, mostram que viver é sublime (e inexplicável, inexplicável). Inclusive, em todas as suas intempéries."

De quantas páginas você precisa?

*Felipe baruc recomenda Babel, drama de Alejandro González Iñarritu com roteiro de Guillermo Arriaga, vencedor do globo de ouro e indicado ao Oscar, que conta de modo ímpar, três histórias diferentes e interligadas sobre perdas e recomeços.

CINEMA - P.S. Eu te amo

Seguindo à risca (algumas das) minhas resoluções de ano novo, estive no último sábado num cinema da capital para assistir a P.S. Eu te amo (P.S. I love you, Estados Unidos, 2007), filme mais recente da duas vezes vencedora do Oscar, Hillary Swank e do adorável (não estranhem) Gerard Butler, de 300 (que com o personagem, revela uma empatia surpreendente).

comédia romântica de Richard LaGravenese, produzida por Wendy Finerman, Broderick Johnson, Andrew A. Kosove, Molly Smith, os mesmos criadores de O diabo veste prada (The devil wears prada, EUA, 2006), conta com humor irreverente e sensível a história de Holly Kennedy, corretora de imóveis, que após a morte do marido, Gerry, vivido por Butler, começa a receber cartas escritas ainda em vida pelo próprio, com o intuito de ajudá-la na recuperação.

Cheio de boas piadas e atuações convincentes, P.S. Eu te amo, é uma pedida deliciosa não só para casais apaixonados, mas para quem gosta de bom entretenimento. Vá ver (e não partam da premissa de filme de mulherzinha).

Serviço: Pátio Brasil Shopping, Sala 03/*Sessões às 16h10m, 18h50m e 21h30m.

Dedique alguns minutos à ela

Foto: Fernando Louza

Patrícia é um travesti, nascido Felipe, há 25 anos atrás, na Ilha do Governador, Rio de Janeiro. Patrícia tem muito a dizer. E diz muito, sobre a essência e os tabus humanos em entrevista à reporter Silvia Pilz, na revista Marie Claire, edição 202 Jan/08.

Dispa-se de preconceitos e encare a história desta mulher (ou homem, como preferir) que conhece (e encara) a hipocrisia do mundo como poucos.

Vá em http://revistamarieclaire.globo.com/Marieclaire/0,6993,EML1666417-1740,00.html

Lágrimas secam por si só, Amy

"Ele vai, o sol se põe. Ele leva o dia embora."

Amy Winehouse, 23, choramingosa em Tears dry on their own, de Back to Black, um dos 50 melhores álbuns do ano, segundo a Rolling Stone USA, e que concorre a 6 grammy awards na cerimônia de 2008.

mais? Vá em http://vagalume.uol.com.br/amy-winehouse/tears-dry-on-their-own-traducao.html

ou http://www.rollingstone.com.br/materia.aspx?idItem=29&titulo=Amy%20Winehouse:%20a%20diva%20e%20seus%20demônios&Session=

ou ainda http://www.rollingstone.com.br/materia.aspx?idItem=1374&titulo=Grammy+2008

e por último http://www.rollingstone.com.br/materia.aspx?idItem=1457&titulo=Britney+%c3%a9+%c3%baltima+da+lista

No Youtube:

O primeiro dia
Encarar a folha em branco no primeiro dia do ano. É como reescrever uma história. Várias delas. Como nunca saber o que irá acontecer. E não sabemos. Nunca.

O primeiro dia do ano é a oportunidade de recriar. Como um novo nascimento. Voltar pra casa e não ser reconhecido. Perder as piores características. Poder fazer o que devemos fazer e justificar: ano novo, vida nova. De novo. É dia de abandonar as resoluções listadas anteriormente e criar novas. E diárias, como ir ao cinema, comer pipoca e chocolate.

Novas canções, ritmos. Menos móveis e papéis espalhados pela casa.

Amores abandonados. Deixados para que tenham seu espaço e tempo (que seja eterno enquanto dure).

O primeiro dia do ano é como fazer compromisso com a vida. Uma nova vida, com todas as características estabelecidas durante a catarse de uma noite (ou de algumas) regada a lágrimas, soluços, susurros. E aonde decide-se que a rotina deverá perder o sentido que tinha e tomar um novo propósito. Um novo projeto. Ou o resgate de um antigo.

O primeiro dia do ano é e deve ser honesto. E deve perpetuar-se, como numa espécie de carpe diem infinito. Constante.
Novo caderno

"Pensam os homens reinaugurar a sua vida e começar novo caderno, fresco como o pão do dia, pois que nestes dias a aventura parece em ponto de vôo."

João Cabral de Melo Neto, do poema "Cartão de Natal".

Next year

1

Ela rasgou cartas, extratos bancários e manuais de produtos que nunca usou, num ritual que lhe tomava horas, às vezes dias, em que o intuito era purificar, estabelecer ordem para o ano que chegava e a vida nova que trazia consigo.

2

Ele decidiu que ficaria os dias restantes até a virada sem tomar banho, a fim de que, na noite da passagem, no exato instante da passagem, estivesse imerso em uma banheira com água, num ritual de purificação para o ano que chegava.

3

Ela dirigiu até a fronteira de Rio Verde e Águas Novas, enveredou-se pelo mato e só parou quando não viu mais vestígio de civilização. Fechou os olhos e gritou. Todos os gritos do mundo, pro desespero tomar forma, até amolecer, caída. Quando se levantou, muito depois, olhos já secos, voltou ao carro e à vida.

Pela metade

Foto: Felipe Lima

Era um Caffé com uma plataforma superior muito aconchegante. Foi pra lá que eles foram, depois de um encontro muitíssimo inusitado num Shopping Center. Afinal, encontrar-se assim, os quatro de uma vez, sem nada ter combinado, não podia ser obra do puro acaso. Era o destino, unindo-os para que enfim, todos os is recebessem seus devidos pingos.

Far
"Escrevo de longe: Paris, para ser mais preciso: semana que vem estarei em Los Angeles, mas não sei o que farei lá ainda. Paris é linda. A torre também, constatei já de início. Perto de casa (poucos dias aqui e chamo o albergue onde me hospedo, de casa) há um armazém deliciosamente aconchegante aonde vendem o amendoim dori Special, selecionado eletronicamente, sem colesterol, torrado e salgado (sem pele), fabricado no brasil e que adoro."
Achados e perdidos

1

-- Eu sou um filho da puta! - Ele dizia, em voz alta, pra si mesmo. -- Um filho da puta.

Caminhava pelo pavilhão, outrora cheio e agora limpo, com passos consistentes em direção à saída. Chovia. Pingos grossos, e assim mesmo, ele se pôs em direção ao carro. Saiu sem pressa do estacionamento, sem pressa da vida, que se mostrara tão desgraçada naquele dia.

Pois esse moço, aos olhos de alguns um homem de sorte (a ponto de despertar invejas), foi achar bem nesse dia, a mulher de sua vida, jogada na chuva, sem eira nem beira, encharcada. Ele parou próximo à garota e soltou, sem vacilo:

-- Entra aí.

A garota achou, de início, se tratar de sequestro ou assalto, visto o estado da cidade do Rio de Janeiro. Mas não viu armas na mão do sujeito, a quem respondeu:

-- Por que eu entraria?

-- Eu pago. - Foi a resposta. -- Trepo, pago e você vai embora. Te deixo na porta da estação.

A garota entrou no carro e se acomodou no banco do passageiro, profissional:

-- Tá esperando o quê? - Perguntou.

Bernardo concentrou-se no volante e seguiu, parando ao encontro do primeiro muquifo onde houvesse uma cama. Os dois subiram as escadas, estreitas, sem dar uma palavra sequer. Pararam em frente à porta, ele com a chave, ela olhando pra janela, tentando conter a chuva. O quarto era realmente um muquifo. E não tinha cama. Paredes descascadas, chão de madeira gasta, poucos móveis e um colchão estendido no chão, coberto por um lençol verde. O único oásis.

-- Tira a roupa. - Ele disse.

Ela obedeceu, com movimentos sóbrios. Ele, no banheiro, em frente ao espelho, arrancou a gravata e atirou-a no chão, quase sem perceber. Já nua, ela o encarava, anesteziada.

Quando Bernardo deparou-se com o corpo daquela menina, engoliu a seco a saliva grossa e manteve a postura firme (ou pelo menos, tentou). Seguiu em direção à garota, desabotoando a camisa e o feixo da calça, quase que simultaneamente. Ela permaneceu imóvel. Bernardo pôs-se enfim diante dela e viu: O entreabrir de lábios o convidava. Logo.

2

Foi uma transa crua, cruelmente honesta. Entregue, intensa. Poucos sons, alguns gemidos. Olhos ora abertos, ora fechados, cerrados, de dor e prazer.

3

-- Você tem um cigarro?

Do box, ela respondeu:

-- Eu não fumo.

-- É, eu também não. -  Resmungou ele, do outro lado. -- Aonde você quer que eu te deixe? - perguntou, tirando da carteira uma razoável quantia em dinheiro.

-- Se possível, no mesmo lugar onde me pegou mais cedo. - Ela respondeu, saindo do banheiro enrolada na toalha, também verde.

Se encararam mais uma vez e não pareciam dois completos estranhos.

-- Seu dinheiro. - Ofereceu.

-- Não sou prostituta. - Foi a resposta.

Ele riu e insistiu:

-- Qual é, garota? Pega o teu dinheiro.

-- Não sou prostituta, fica com o seu dinheiro.

Ela não parecia se incomodar com a situação, a voz caminhava entre o leve e o denso. Esquivou-se do olhar de Bernardo e seguiu até o colchão, catando suas roupas, ainda molhadas, pelo caminho. Bernardo parecia não entender:

-- Como assim, não é puta? - Questionava.

Ela vestia a roupa, apenas.

-- Não se vista ainda.

A frase soou como uma ordem e ela prontamente largou a calça, uma perna vestida, outra não. levantou o rosto e viu Bernardo em pé, sério, indagando. Sóbria, ela repetiu mais uma vez, devagar:

-- Não sou prostituta.

Ele a encarava com a mesma sobriedade no olhar e na voz:

-- É? Então me responde uma coisa: Por que você entrou na porra daquele carro?

Ela desvencilhou-se por completo da calça e respondeu:

-- Eu não sei.

Bernardo riu, achando graça à toa:

-- Não sabe? Quer dizer que você andava sozinha, na rua, à noite, viu um cara parar o carro e te oferecer dinheiro pra trepar e, mesmo não sendo puta, entrou no carro e saiu com ele?

-- Quer dizer que você pára o seu carro, na rua, à noite, vê uma menina que veste calça jeans e bata, carrega bolsa, garrafa d'água e livros, acha que ela é prostituta e oferece dinheiro pra trepar com ela?

Ele ficou em silêncio, descrente.

-- O que te levou a crer que eu era uma? A roupa? Acho que destoa um pouco do vestuário de uma puta.

-- Você só pode estar curtindo com a minha cara!

-- Se eu realmente quisesse curtir com a sua cara eu pegava a sua grana e ia embora, com a certeza de que nunca mais o veria.

Bernardo ria, tenso. Um riso nervoso. Ela estudava sua reação, preocupada:

-- Olha, tudo bem. Eu posso ir daqui até a estação. Você não precisa se preocupar.

-- Por que eu me preocuparia com você, garota? Você é uma doida. Maluca.

Bernardo foi até a janela, fechada. A chuva ainda caía forte.

Ela vestiu-se rapidamente e pôs-se de pé, pronta a ir embora. Olhou-o, de costas ainda, e a chuva, amedrontadora. Respirou fundo e despediu-se:

-- Foi bom pra mim também.

Catou a bolsa do chão e caminhou em direção à porta. Parou, olhou para Bernardo mais uma vez, virou-se e continuou o trajeto. Já na porta, com a mão girando a maçaneta, perguntou, incrédula:

-- Vai mesmo me deixar ir embora?

Dessa vez foi ele quem a mirou, desdenhando. Voltou a olhar a chuva, resignado. Ela percorreu o olhar por todo o quarto, mordendo lábios, como se achasse duro despedir-se daquele lugar, que conhecera há pouco. Respirou, fechou os olhos e a porta.

4

Ele permaneceu na janela, forçando a vista, na espera de ver a garota sair em meio àquela tempestade. Aguardou alguns minutos e nada. Virou-se em direção ao colchão, com a intenção de dormir por ali mesmo (visto a chuva, sem trégua).

Bernardo surpreendeu-se ao ver, atônito, que a garota se mantinha ali, de pé, como se houvesse criado raiz em frente a porta. Estava estupefato: Primeiro, por sua atitude inconsequente de (ou ter a intenção de) pagar por algo que sempre teve de graça, e aos montes. Segundo, por realmente desacreditar que uma pessoa mentalmente sã, pudesse fazer o que aquela menina fez. Ou era louca ou completamente despida de temores. As duas opções o faziam crer que definitivamente, aquela não era uma garota trivial.

Bernardo fitava-a, pondo em ordem os pensamentos, tentando encontrar um sentido para a situação.

-- Algumas coisas não fazem sentido.

-- Qual é o seu nome? - Bernardo tinha as mão na cintura, numa postura incisiva.

-- Chloe.

-- Chloe? Francês?

-- Grego.

-- Bernardo. - Concluiu a apresentação. --  O que significa?

Ela fechou os olhos, buscando:

-- Folhagem viçosa. Ou algo parecido. - Recuperou.

-- Viçosa? Isso explica alguma coisa?

-- Bernardo, - tentou explicar, mãos na cintura (como se o imitasse), postura de princesa rebelde, emudecendo de vez em quando -- eu realmente acho que fui um tanto quanto inconsequente durante essas horas em que estivemos juntos. Eu não sou prostituta. E pra ser honesta, não sei porque entrei no seu carro. Pra ser mais honesta ainda, não sei por que ainda estou aqui. Talvez por causa da chuva. Não sei. O fato, é que se você não me matou até agora, provavelmente não é um assassino. Isso me deixa um pouco mais segura, já que não pretendo ir embora agora, com esse temporal lá fora. Sei que deve ser difícil compreender e aceitar, mas eu não sou louca (pelo menos nunca assumi isso). Tenho família, mas não pai, estudo e trabalho 8 horas por dia. Trivial, não?

Bernardo aproximou-se de Chloe:

-- O que você pensa que está fazendo? - Indagou.

-- Não estou pensando.

-- Eu quero saber por que você por que você entrou no meu carro.

-- Porque você pediu.

-- O que te fez acatar?

-- Eu não sei.

-- Como não?

-- Por que queria transar com uma prostituta?

-- Porque não teria de perguntar o nome dela.

-- Só por isso?

-- Não te devo satisfações.

-- Não disse que deve.

-- Eu quero entender o que te fez entrar na porra do carro...

-- Entender pra quê? Entender atrapalha.

-- E fingir que era puta.

-- Não disse em instante algum que era puta. Não disse que aceitaria seu dinheiro.

-- Mas entrou no carro.

-- E daí?

-- Você não me conhecia.

-- Te conheço agora?

-- Mais do que qualquer pessoa.

-- Isso é ruim?

-- Mais do que pode imaginar.

-- Por que é tão ruim?

-- Porque eu não sou perfeito.

-- Claro que não.

-- Não te incomoda?

-- Por que incomodaria?

-- Porque incomoda a todo mundo!

-- Como sabe?

-- Elas demonstram insatisfação.

-- Pareço insatisfeita?

-- Se estivesse satisfeita jamais teria entrado naquele carro.

-- Então, você sabe a resposta.

Por um instante breve, houve trégua.

-- Quem te botou lá? - Insistia ele.

-- O destino?

-- Quem é você?

-- Sua salvação.

-- Você não parece um anjo.

-- Não sou um.

O diálogo, como um bombardeio, cessou e o silêncio instalou-se por um instante, até Bernardo dizer, numa urgência que só a alma (e o corpo) compreende:

-- Tira a roupa.

Carpe diem

Os gregos não faziam obituários. Quando um homem morria, eles faziam uma pergunta: "Ele viveu com paixão?"

De Escrito nas estrelas (Serendipity, Peter Chelsom, 2001).

Os porres da vida

Foto: www.manguesecocachacaria.com.br

Quase-memórias de um bêbado

Provavelmente este texto só será publicado na segunda, quando estiver recuperado do meu porre, recobrado a consciência e parado de arrotar a fumaça das quase duas carteiras de cigarro que fumei (o detalhe é que não fumo - exceto quando bebo, e hoje eu bebi. Muito).

Me ocorreu na hora do banho, a lembrança de meu primeiro porre. Eu tinha dezessete anos, estava desesperadamente apaixonado, confuso e acompanhado de uma galera mais experiente (em farras). Ingredientes perfeitos.

Me lembro como hoje (quase): Naquele dia, dois terços da sala faltou à aula - salve engano numa quarta feira - para farrear e curtir a vida como delinquentes.

(Minha turma de segundo ano tinha tipos muito diferentes, o que era enriquecedor e divertido). Fomos juntos pra casa de uma de nossas colegas, nas proximidades da escola. Cada um levaria bebida, comeríamos qualquer coisa. Foi uma excitação nova, sensação de transgressão. Àquela altura já planejava ficar bêbado. E fiquei. Quase entrei em coma alcoólico.

Não demorou. Pouco depois de ter chegado já estava completamente tonto (depois das dancinhas típicas de gente bêbada e do desbocar). Lá estava eu, tentado agarrar uma pobre coitada (no fundo ela queria, mas não ia dar o braço a torcer - preferia me pegar sóbrio) no banheiro. Estávamos encharcados, embaixo do chuveiro, nem sei como fomos parar lá. O fato é que eu, que ganhara durante aquele ano uma imérita fama de frouxo, naquele instante já era conhecido como taradinho e outros nomes afins.

E assim prossegui, durante toda a tarde louca que tivemos. A certa altura, juntamos todos num quarto e conversávamos a respeito de tudo. Foi o ponto alto: discursei sobre a personalidade de cada um dos que ali estavam e não parava de ouvir gargalhadas (reflexos do meu tom irônico em tratar de assuntos sérios). Resultado: paguei micos diversos e fui a sensação da festa. Até não mais me aguentar e cair de bêbado, literalmente. Tiveram de me trocar, me colocar na cama.

E o resto não é mais interessante.

Felipe baruc é um pseudo-escritorzinho de subúrbio que não tem vícios. Exceto o de se apaixonar e não ser correspondido, razão de todas as suas bebedeiras ocasionais.

Malandragem

"Quem sabe a vida é não sonhar?"

Cazuza e Frejat, em Malandragem.

(Re)encontro

Ilustração: Encontro, Luiz Telles.

Se encontraram depois de anos, carrinhos lotados, num supermercado:

-- ?

-- ?

-- Você?

Ela riu, descompassada:

-- É, acho que sim.

-- E aí?

-- Tudo bem, e você?

-- Bem.

-- Que bom.

-- É.

Risos um tanto constrangedores.

-- Você está muito bem.

-- Eu? Gentileza sua. Você também está diferente.

-- Diferente? Um pouco mais gordo, é verdade. Algumas rugas já aparentes. Diferente mesmo.

Risos descontraídos de ambas as partes.

-- Imagina, você sempre esteve muito bem.

Silêncio. Ele pergunta:

-- Então, está morando aqui por perto?

-- É, aqui perto. Não me diga que você também?

-- Sim, aqui perto. Casado, quer dizer, junto, uma filha. A propósito, essa é minha filha.

-- É uma menina linda. Como é o seu nome? - mimando.

-- Ela não fala ainda.

-- Ah, claro. Que idiota! Que idade ela tem?

-- 1 ano e 2 meses. E o nome dela é Eduarda.

-- Bonito nome.

Mais silêncio.

-- E você? Compromisso?

-- Nenhum tipo de compromisso sério, a não ser o de não mais me envolver em roubadas sentimentais.

-- Hum...

Mais silêncio. Ele:

-- Me lembro até hoje de você. Na porta da minha casa. Se declarando.

Momento de constrangimento. Ela, em tom sereno, responde (com duas peguntas):

-- É a sua intenção? Me constranger?

-- Imagina, quê isso. Eu só...

-- Tudo bem.

-- ... Pensei que talvez aquela fosse a sua última roubada sentimental.

-- Quem dera. Sou expert em roubadas sentimentais.

-- Mas agora você parece bem mais saudável.

-- Definitivamente, algumas coisas me fizeram bem. Depois daquele período turbulento que durou um tempo, depois da declaração no seu portão, das mensagens de madrugada para o seu telefone, das ligações insistentes. Dos foras contínuos.

-- Me desculpe por qualquer coisa.

-- Você não teve culpa de nada. Quer dizer, não era sua culpa não me corresponder. Enfim...

Novo silêncio (Um pouco mais constrangedor).

-- Você realmente está muito bem.

-- Mais uma vez, obrigada.

-- Não tem de quê.

-- Boas compras, então?

-- Claro, pra você também.

Mais silêncio. Nenhum dos dois dá sinal de que vai embora. Ele respira e pergunta:

-- Eu deveria te ligar?

-- Não, definitivamente não. Não. Com certeza, não.

-- Mesmo? Talvez eu pudesse te ligar.

-- Não. Quer dizer, mesmo. Você tem uma vida confortável agora, uma família, estabilidade.

Mais silêncio e em seguida uma pergunta desconcertante. Dele:

-- Você tem tudo o que precisa?

Silêncio e uma resposta convicta. Dela:

-- Ninguém tem.

Novo silêncio.

-- Você ainda precisa de mim?

Silêncio. Descompasso. Uma certa agonia.

-- Veja, você não acha absurdamente irônico, você cruzar o meu caminho, agora, e de repente, fazer este tipo de pergunta? Isso definitivamente não faz sentido!

Eduarda dava tapinhas no rosto do pai.

-- O que é que faz sentido hoje em dia?

-- Não importa.

Silêncio. Ele:

-- Um café?

-- Hein?

-- Chá? Coca Light Lemon?

-- Não!

Eduarda ainda batia no pai. Ele tentava conter as mãozinhas inquietas da filha.

-- Me dá uma chance?

-- Você não me deu uma.

-- Eu tive medo.

-- Que bom que admitiu. Passe bem!

Ele permanecia estático. Ela:

-- Vai me deixar passar com o carrinho?

-- Vai ser como passar com um trator em cima de mim.

-- Por que você está fazendo isso? Meu Deus!

-- Você é quem tem medo, agora!

-- Não é medo.

-- Não?

A essa altura, os dois já chegavam a chamar a atenção de transeuntes. Ela:

-- Você não tem a menor idéia do que está fazendo.

-- Estou fazendo você vacilar? Talvez você ainda queira. Me queira.

-- Você já ouviu falar em bom senso?

-- Você já ouviu falar em desperdício? Foi o que fiz a minha vida inteira. Desperdicei oportunidades. Agora o destino te bota aqui, na minha frente. Linda, segura, decidida, intensa: como eu te queria naquela época! Eu não posso cometer o mesmo erro duas vezes.

-- Eu também não.

-- Por favor!

-- Eu é que peço: Por favor, saia da minha frente.

-- Não posso.

-- Por que agora? Logo agora?

-- No tempo certo.

Silêncio. Olhares. Respirações. Silêncio. Ele:

-- Me deixa tentar.

-- Pra quê?

-- Pra que eu possa descobrir o que é amar alguém. Viver um amor.

-- Que poético... Você quer me corresponder, agora?

-- Não tripudie.

Silêncio. Ela:

-- Eu tenho de ir. Não me leve a mal. Fica bem.

-- Você não vai mesmo me perdoar?

-- Não tenho o que perdoar. Você é que precisa se desvencilhar do passado. Ter coragem pra mudar o que precisa.

Ele abaixou a cabeça. Eduarda puxava a orelha do pai, como se achasse um brinquedinho. Foi ao bebê que ela se dirigiu:

-- Você é uma menina linda. E o seu pai realmente precisa de uns puxões de orelha. O que prova que você também é esperta.

Olhou-o mais uma vez. Ele:

-- Toma cuidado, viu? - a expressão era de zelo.

-- Cuidado com o quê?

-- Com tudo.

Ela riu, complacente, e saiu, empurrando o carrinho.

Mais ilustrações de Luiz Telles em www.luiztelles.com

Pobreza

"Tem gente que é tão pobre, mas tão pobre, que só tem dinheiro."

Pedro de Lara (1925 - 2007), artista plural e singular. Foi radialista, escritor, cantor, jurado e astrólogo, dentre outras 1001 atividades.

Tão

Ele quase não conseguia esconder seu bem querer por ela. O quase o preocupava. Ela às vezes se continha, ponderada, outras quase escancarava, inconsequente. O quase a preocupava. Um olhar mais minucioso e estariam descobertos (um descobriria o outro e todos os outros os descobririam). Sorte que no furor do século as pessoas não enxergam muito, além do próprio umbigo. "Ainda bem", pensavam.

Ele, de estatura baixa, com seus quase 30 anos, casado, duas crianças e uma vida pacata. Ela, prestes a completar 20, trabalhava, estudava e o amava.

Frequentavam a mesma casa (de amigos e parentes, em geral), conversavam e até brincavam (ele, sempre tão impetuoso - chegou a queimá-la, uma vez, com uma panela. Ela, revidava com tapas e xingamentos).

Ela, uma vida consumida e desgastada pelas emoções, sempre tão à flor da pele. Que maluca! Maluca desde sempre. Caótica (e, como o caos, bela e intensa - embora perturbadora). Tão emotiva (que chegava a ser boba), tão sensitiva (que chegava a dominar o mundo, quando o mundo a percebia). Tão decidida (chegava a entusiasmar), tão decadente (chegava a causar pena).

Ele, tão ingênuo (apesar da libertinagem e safadeza), de caráter tão firme (apesar dos desvios). Tão cheio de valores e de trabalho (como trabalhava, o homem!).

Ela, tão disposta para o amor e os perigos.

Ele, tão equilibrado, sensato e conveniente.

(Mas o diabo do homem, às vezes arranjava um olhar de menino. Carente. E assim andava pelos cantos. Ela, chafurdada na lama da paixão (se pudesse) o consolaria, o respeitaria. Lavaria as cuecas e os calçados, prepararia o café e o jantar. Assim, Amélia. E quando nos tempos de lascívia - tão comum nos jovens - o vendaria (com a gravata, como vira num filme) sentaria em seu colo e lhe mordiscaria a orelha. Beijaria-lhe a boca. E o corpo. Faria-o gozar (pra ele) de formas tão inéditas e tão boas. O pobre: tinha malícia e ainda inocência. E a deixava encantada).

Mas de um amor assim, tão confuso e tão estranho, feito de impossibilidades, não se espera nada além da morte (se não de todo, de um pouco, de um pedaço).

Tão diferentes, tão iguais.

Não convencionais.

E realmente não convinham. Nunca convinheram, nunca consumaram aquele sentimento. Nunca souberam realmente o que eram um pro outro (creio eu - palpitando de intrometido - que eram o mundo. Ele o dela e ela o dele, só que nunca perceberam).

Enfim, morreram (deixando órfãos e viúvos). Velhos, bem sucedidos (cada qual de acordo com suas ambições).

Sofridos. Por não terem amado (permitido). Por não terem vivido.

Meninos

As mulheres esperam que nós, homens, jorremos virilidade e segurança. Como fazer isso se estamos prestes a perder a cabeça? Mulheres, se ainda não perceberam, esclareço: nós somos o sexo frágil. E estamos perdidos como se estivéssemos em meio a um furacão, tentando desesperadamente encontrar abrigo.

Um homem não se faz sem uma mulher em seu caminho (a começar pelo ato de parir). Como esperar que façamos algo que preste de nossas vidas castigadas pelo trabalho e pelo peso de ser homem em pleno século 21 e suas convenções, duramente impostas pela sociedade sem misericórdia em que vivemos? Quem foi que deixou que chegássemos a esse ponto? tenho de descobrir, preciso dividir a culpa com alguém.

Às vezes penso que Deus se compadece de nossa causa e aos bons exemplares da espécie, reserva uma mulher graciosa e disposta a nos tornar melhores.

É essa a quem procuro com olhar atento quase que diariamente, nas idas e vindas que a gente faz. Talvez a encontre. Provavelmente quando deixar de procurá-la, já que o destino fica, a cada volta completa dos ponteiros do relógio, mais irônico, como se zombasse de nós, meninos, tão pequenininhos.

Derailed

A cada instante que passa, tenho a sensação cada vez mais nítida, de que fico mais perdido (não é à toa que a expressão "desconcertado" nunca mais saiu do índice meu humor, aqui do barefoot). E agora, ao escrever, sinto que, aos poucos, vou perdendo a identidade e que aquele garoto que decidiu criar um blog, agora está mais interessado em divulgá-lo (ainda que não tenha o que dizer). É o imediatismo despudorado de quem quer reconhecimento. "Pra quê?", me pergunto e me confundo ainda mais.

Desnorteio

Em comum na voz dos dois, havia o tom de sobriedade:

-- Você sabe que o que estamos fazendo é errado, não sabe?

-- Sei.

-- Que não deviamos fazer isso, não sabe?

-- Sei.

-- Então, por que estamos fazendo?

-- Não sei.

Silêncio.

-- Eu sei. Talvez eu goste de você. De estar com você.

-- Talvez, é?

-- Não sei. - arfou - Talvez eu goste de você até mais do que gosto de mim.

-- Isso não é bom.

-- É... - concordou - Eu sei.

E buscavam compreender o que viviam, confusos por saber pouco e sentir muito.

Aspas

Foto: divulgação/unieuro.edu.br

"Lembrem-se que não existem perguntas indiscretas, existem respostas indiscretas."

Pedro Bial, jornalista, desinibindo o público em palestra para jovens estudantes do ensino médio, realizada pelo Centro Universitário Unieuro, em Brasília, durante os dias 30 e 31 de outubro de 2007.

O preço da admissão

"Gertrude Stein tentou exprimir pensamento semelhante ao dizer - referindo-se mais à vida que às letras - que lutamos contra nossas qualidades mais excepcionais até cerca dos quarenta anos, quando então descobrimos, tarde demais, que elas compunham o nosso verdadeiro ser. Eram a parte mais íntima de nós mesmos, que devíamos ter nutrido e acalentado."

Fernando Sabino citando Fitzgerald, em trecho de O preço da admissão, crônica integrante do livro Deixa o Alfredo falar! Ed. Record (1976).

Nua

Juliette Binoche na capa da revista Playboy francesa, Novembro/2007.

Acho que essa é a capa de revista masculina mais bonita que eu já vi em toda a minha vida.

Foto: divulgação.

Sobre paixões não correspondidas

A Despedida - Oil/Canvas (80x60)

Ilustração: A Despedida, óleo sobre tela de Lucemar de Souza.

Nunca conversaram, mas chegaram, um dia, ao diálogo abaixo:

-- Olha, eu preciso que você suma da minha vida - disse, com voz calma e tom de conciliação.

-- O quê?

-- Desaparecer, sumir.

-- Do que você está falando? - tentou (em vão) compreender.

-- Eu vou tentar ser mais claro: Eu não posso mais sonhar com você durante noites seguidas. Eu tenho medo de dormir, veja só!

-- ?

-- Você não cabe em minha vida. Não tem espaço pra você nessa história.

-- Você não está bem, está?

-- Não, você não deixa. Tá sempre me deixando confuso, desnorteado. Eu não consigo sequer completar uma frase quando estou na sua frente. E isso tem me afetado de maneira cruel. Eu já não trabalho mais.

-- Escuta, você não quer se sentar? Tomar uma água?

-- Pare de ser uma pessoa tão boa, tão compreensiva, porra! O que eu quero já te disse. Quero que me deixe em paz. Não me cumpremente mais quando me vir na rua, não brinque mais comigo, não me peça dinheiro. Entendeu?

-- ...

-- E pára de me olhar. Seus olhos me ofuscam. Por que eles tinham de ser tão verdes?

-- Caramba, você é louco...

-- Na verdade eu estou tentando não ficar. Por isso eu preciso que você colabore. Por que você não se muda? Pega sua família, seus filhos e vai embora? Eu faria isso se pudesse.

-- Vá se ferrar! - indignou-se, sem entender ainda todas aquelas palavras.

-- Eu até gostaria. Entretanto, mais ferrado do que eu já estou, impossível.

-- Meu Deus, eu chego a me preocupar com você!

-- Jura?

-- Agora sim, eu estou vendo seu estado!

-- Então faça o que eu estou pedindo se você tem um coração, tá bom? E olha, não volta mais, fica por lá mesmo. Ah, vá e fique com Deus, viu? Boa sorte.

E saiu, aliviado, como se dali por diante, a vida não lhe reservasse um inferno sem precedentes.

Joga fora no lixo

Fotos: Marcos Prado

Lembrando de Fernando Sabino em uma de suas crônicas, adianto que muito provavelmente, não saberei me reverter da seriedade que o assunto exige e que as fotos de Marcos Prado, fotógrafo e diretor do documentário "Estamira", denunciam. O fato, é que toda vez que vejo um animal (sem querer ofender a nossa fauna) jogar lixo na rua, a primeira imagem que me vem à cabeça é a do sujeitinho levando uma surra, que pode variar de acordo com o que tenho em mãos: pode ser uma revista, a mochila, ou mesmo o sapato, que tiro abruptamente dos pés e atiro, num lance certeiro que atinge diretamente os córneos do indivíduo. É uma imagem que pode sumir da cabeça rapidamente, ou durar toda a viagem (quando o inconsciente é tão sem vergonha, que pela janela, atira uma lata de alumínio ou um saco vazio de Ruffles - fosse cheio ainda ajudava a matar a fome de um miserável).

Ontem, deparei-me mais uma vez com a cena lamentável em que um leviano espalha cretinamente pela rua, papeizinhos amassados de bis.

Coisa que me dói é ver que o homem não tem (ou não quer usar) a capacidade (que eu chamo de bom senso e outros, de senso de zelo) para perceber que estamos destruindo o mundo. E que o planeta, coitado, sujo, mal cuidado, tem desesperadamente pedido socorro pra uma platéia surda e estática, que vê mas não consegue entender, e mais do que entender, agir.

Vez ou outra, possuído por um sentimento parecido com o que escrevo agora, enfrento o vagabundo. Uma vez, parado enquanto aguardava condução num ponto de ônibus, vi uma mulherzinha jogar num gesto rápido, quase ao meio da pista, uma garrafa plástica de água mineral. E eu, estupefato:

-- Moça, tem uma lixeira ali, bem ao seu lado - disse, quase a implorar que ela se redimisse, ao que a cretina olhou-me de cima a baixo e virou a cara num gesto de desdém quase imcompreensível pra mim.

Fazer o que? É a contribuição que posso dar por enquanto. Ao responder a já famosa primeira pergunta, das dez que a revista Marie Claire faz a seus entrevistados da sessão Pré-estréia, (Se você fosse Deus e só pudesse tomar uma decisão, qual seria?) diria: "Faria com que o respeito ao próximo fosse o objetivo que o ser humano mais quisesse alcançar. E que fosse o mais fácil de ser alcançado."

E diria isso porque realmente acredito que se pudéssemos reduzir nossa ambição a um desejo principal, seria esse o que nos levaria à concretização de todos os outros.

Felipe baruc é um pseudo-escritorzinho de subúrbio que fica indignado ao ver que estão destruindo a sua casa.

Kimi

"A perseverança deste milênio já tem rosto."

Matti Vanhanen, Primeiro-Ministro da Finlândia, ao comentar a vitória do compatriota, piloto da Ferrari e campeão da F1 2007, Kimi Raikkonen.

Notas sobre o trivial

A família ainda é nosso porto seguro?

Abandono um tanto as notas que publiquei recentemente, e dedico-me agora a relembrar um caso acontecido ainda essa semana: lembro-me de ter ficado de certa forma estarrecido, quando, já de tarde e em dia de semana, minha sobrinha de 05 anos de idade, respondia-me com imensa estultícia a uma queixa que lhe havia feito. De súbito, diante do acontecido, tirei do pé direito minha Ipanema verde e ameacei-a com umas boas chineladas. Mais tarde, resolvido o impasse, lembro de ter (não sei por qual motivo) refletido sobre o acontecido horas antes e pensado: "sou um homem das cavernas, tomando uma atitude não menos arcaica."

De fato bater em criancinhas hoje parece abominável, mas naquele instante, ao ver o quão eficaz foi minha ameaça (e olha que nem cheguei às vias de fato), percebi que talvez o mundo fosse um lugar mais justo e de uma maneira geral e ampla, melhor, se os pais e famílias educassem seus filhos para a realidade da vida (e as devidas pancadas, quando merecidas, fazem parte de uma educação eficaz). A família virou uma instituição falida. Doente, cambaleante, mal das pernas. E a culpa, é nossa, claro. 

Felipe baruc é um pseudo-escritorzinho de subúrbio que tem sempre de responder à pergunta: "Ei, o que é isso, Felipe?" quando passam na frente do computador. "É um blog, fulano" responde e ri. E as pessoas riem de volta. Só que da cara dele.

Under the iron sea

"Ao criarmos o material para este disco, tentamos confrontar nossos maiores medos. Tínhamos uma atmosfera incrivelmente intensa durante a gravação do álbum e as canções refletem isso muito bem. Tentamos criar um sentimento de confusão, representado por um lugar escuro, sob um mar impenetrável de ferro", dizem os rapazes do Keane, no site oficial da banda.

Quatro bons momentos do Keane, no Youtube:

Em Crystal Ball (enigma III), com Giovani Ribisi como o protagonista do vídeo;

na bela e triste A Bad dream (enigma I);

em versão Live de Is it any wonder?;

e em Atlantic (enigma II), que ganhou vídeo caprichado e estendido: vencendo o fantasma do segundo disco.

Enigma III

"Tudo o que eu sei está errado."

mais no próximo post.

Enigma II

"Eu não quero estar velho e dormir sozinho. Uma casa vazia não é um lar. Eu não quero ficar velho e sentir medo."

Enigma

"Eu estava lutando, mas me sinto muito cansado pra lutar. Acho que não faço o tipo lutador."

Narcisismo

Que tipo de pseudo-escritor concede uma entrevista a si mesmo? Leia e tente descobrir.

Nascido e criado em Brasília, Felipe baruc (ou Felipe Lima, ainda não se decidiu) sempre esperou muito da vida. Até descobrir que ela (a vida), além de curta, era, na maior parte do tempo, péssima. Então decidiu buscar mais honestidade em suas relações: com as plantas do jardim, com os animais (racionais e irracionais), com o trabalho, com o corpo. Em entrevista exclusiva ao Barefoot blog, Felipe conta como foi a experiência de começar a escrever e publicar suas idéias no territótio incandescente da internet.

Barefoot blog: Por que Barefoot blog? E por que baruc em letra minúscula?

Felipe baruc: (ri) Barefoot em inglês quer dizer "descalço". O "estar descalço" pra mim representa ter contato direto e honesto com as coisas. Tem ainda um sentido low profile e também de contato com a natureza, com os sentidos, que eu adoro e me identifico. E o baruc em letra minúscula é so porque acho mais bonito, mais simples. E às vezes gosto de não ter barreiras metalinguísticas, gramaticais e etc.

Bblog: Quando decidiu publicar "textos despretensiosos e cheios de parênteses", como você mesmo os define, na internet?

Fb: Trabalho como atendente de protocolo em uma faculdade, lidando diretamente com alunos, e há sempre períodos em que o fluxo, o movimento, é menor, geralmente depois que acaba a correria de início e final de semestre. Desse modo, eu tinha de arranjar alguma coisa pra fazer durante as oito horas por dia em que ficava olhando pro tempo. Como sempre tive certa facilidade em escrever, acabou rolando. O desafio foi vencer a barreira da timidez: sempre tive muito medo do que as pessoas pensam de mim, sou muito vulnerável.

Bblog: Não tem medo de admitir isso?

Fb: A gente têm de aprender a conviver com nossos medos, eles estão sempre presentes.

Bblog: Já que é assim: tem medo de que nunca leiam o seu blog?

Fb: (ri) Ninguém lê o meu blog. Claro que gostaria que lêssem e que gostassem do que escrevo. Mas o fato de que praticamente todas as visitas feitas a ele fui eu mesmo quem fiz, não chega a me incomodar, não.

Bblog: O Barefoot blog segue a cartilha comum dos diários virtuais?

Fb: No Barefoot escrevo sobre tudo, sobre a vida, sobre as coisas que gosto. E é comum me aproveitar de experiências que vivo e vejo para refletir e publicar o resultado disso no blog. Mas não chega a ser um diário.

Bblog: E como surgiu a campanha "Save Britney"?

Fb: (ri) Me pondo no lugar dela, eu fico pensando o quanto deve ser terrível ver tudo o que você faz exposto no dia seguinte nas páginas dos jornais e nos noticiários da televisão. As pessoas julgam as atitudes dela com muita facilidade, porque acreditam em tudo o que ouvem. Acho que o buraco não é tão superficial. Por que não deixá-la viver da maneira que quer? Acho que a mídia tem ficado cada vez mais hipócrita, mais superficial, babaca. E a gente que consome também, consequentemente. Posso até estar falando besteira agora, porque de repente ela pode até gostar dessa exposição toda. Só não queria estar no lugar dela.

Bblog: Pretende mudar isso com seu blog? A mídia, como ela é hoje? Ser excessão?

Fb: Putz, não tenho essa pretensão nem de longe. Meu blog é só um espaço aonde posso falar o quero falar, e ler o que eu gosto de ler.

Bblog: E o que gosta de ler?

Fb: Gosto de ler o que me desperta interesse. Pode ser uma notícia sobre a baixa do dólar, pode ser fofoca de bastidores, pode ser José Alencar, Fernando Sabino. Pode ser um blog. Gosto de aprender alguma coisa, qualquer coisa, com o que leio e assisto.

Bblog: Ultimamente, tem escrito com frequência sobre cinema. Descobriu uma nova paixão?

Fb: Na verdade foi uma redescoberta. Sempre gostei muito de artes: música, teatro, mas em especial, de cinema. Mas com o trabalho incessante de uns dois anos pra cá, a rotina, acabei deixando um pouco de lado. Mas aí voltei a ler sobre cinema, a assistir filmes e então redescobri uma paixão. Cinema pra mim é realmente uma paixão. Existe um poder transformador muito grande no cinema. É o que quero fazer quando crescer. (ri).

Bblog: Vai interpretar?

Fb: Gostaria. Um dia.

Bblog: Indique-nos um filme.

Fb: Três: Closer, de Mike Nichols, Cidade Baixa, que vi recentemente e gostei muito, de Sérgio Machado e Brilho Eterno de Uma Mente Sem Lembranças, de Michel Gondry.

Bblog: Ok, sugestões anotadas. É sua única paixão?

Fb: Gosto muito de comer também.

Bblog: (ri) Agora, mudando de assunto: você parece um tanto pessimista em seus textos de reflexão...

Fb: Você acha?

Bblog: Você não?

Fb: Pra falar a verdade, não acho não. Tenho tentado ser realista nos textos que escrevo, tratar tudo com a maior honestidade possível. O pior do otimismo é achar que tudo vai ficar bem sem que precisemos sacrificar alguma coisa. A gente precisa acreditar, mas não pode ser bobo.

Bblog: Sonha com um mundo melhor?

Fb: Sonho com compreensão, amor ao próximo, respeito. Isso faz um mundo melhor.

Bblog: Deixe-nos uma frase.

Fb: Sou péssimo nessas coisas.

Bblog: Tenta.

Fb: "A vida é curta e na maior parte do tempo, é péssima."

Bblog: (com cara de espanto) Radical, não?

Fb: Eu disse que não era bom.

Felipe baruc é um  pseudo-escritorzinho de subúrbio e que gosta de brincar com palavras. No mais, o jogo é sério.

Encrenca

Christina Aguilera em seu melhor.

P&R

Guillermo Arriaga

Foto: bbc.uk

P: Se você fosse Deus e só pudesse tomar uma decisão, qual seria?

R: Daria vida eterna aos que têm coragem de enlouquecer.

Guillermo Arriaga, 49, mexicano, roteirista de filmes como "Babel", "Três Enterros" e "Amores Brutos", em entrevista para a seção "Pré-estréia", da revista Marie Claire, setembro/2007.

Rain

Noite de chuva na cidade (havia mais de quatro meses que não caía um pingo d'água). Dia de livros, chazinho e cama bem cedo.

Apelo

Peço encarecidamente:

Deixem Britney em paz.

Dear Macy

Foto: David LaChapelle (capa do álbum The trouble with being myself)

A fantástica Macy Gray e sua voz de Pato Donald em quatro bons momentos no Youtube:

Em Sexual revolution;

no hit I try;

Com Erikah Badu, em Sweet baby;

E em versão "live in Las Vegas" de I try: Soul, R&B, jazz, hip hop: há espaço pra todos os estilos na bagagem da moça.

Frustraded

Essa semana tentei criar um blog com contos pornoeróticos. Tentei e consegui. O desafio foi escrever as pornografias da vida cotidiana e explicitá-las na internet. A Caixa B, como era chamado, tinha apenas 1/2 conto, que tratava basicamente de... transas escabrosas. Não descrevia, apenas revelava de maneira mediocrimente sutil, noites (dias e madrugadas) de sexo e tesão. Tudo, claro, fruto de uma mente fértil como o Édem.

PS: Aos possíveis interessados, o blog saiu do ar hoje.

Pessoa e amigos

"Meus amigos são todos assim:
metade loucura,
outra metade santidade.
Escolho-os não pela pele,
mas pela pupila,
que tem que ter brilho questionador
e tonalidade inquietante.

Escolho meus amigos pela cara
lavada e pela alma exposta.
Não quero só o ombro ou o colo,
quero também sua maior alegria.
Amigo que não ri junto, não sabe sofrer junto.

Meus amigos são todos assim:
metade bobeira,
metade seriedade.
Não quero risos previsíveis,
nem choros piedosos.
Quero amigos sérios,
daqueles que fazem da realidade
sua fonte de aprendizagem,
mas lutam para que a fantasia não desapareça.

Não quero amigos adultos, nem chatos.
Quero-os metade infância e outra metade velhice.
Crianças, para que não esqueçam o valor do vento no rosto,
e velhos, para que nunca tenham pressa.

Tenho amigos para saber quem eu sou,
pois vendo-os loucos e santos,
bobos e sérios,
crianças e velhos,
nunca me esquecerei de que a normalidade é uma ilusão..."

Fernando Pessoa

Elo

Conexão. A última edição da trip, que chegou às minhas mãos no mês passado (mais precisamente a edição do mês de maio, e que ainda estou lendo), trouxe a sensação de que alguém no mundo ainda se importa com coisas que valem a pena. Li, com uma inveja de quem queria ter dito e usado aquelas palavras, o texto de Luis Alberto Mendes, onde conta de um amigo que, pessimista com o mundo e as pessoas, ainda tinha uma esperança escondida.

Estarei feliz enquanto a imprensa do país ainda demonstrar algo de transgressor e sensível em seu meio. Reproduzo abaixo, um trecho do texto de Luis (espero não ser processado por isso):

"Ele acreditava em uma saída. Individual. Nos voltarmos pra dentro, estudar, buscar conhecer em profundo. Melhorar no que somos, cada um fazendo sua parte. Reconectar, fazer o que lhe parece mais justo, correto e ajudar sempre que possível. Alinhar mente, espírito e corpo a partir de uma concentração em si. Esquecer ontens e amanhãs porque só existe hoje e unicamente no singular."

PS: Leia, pense, transforme.

Undiscovery

"Se todos fizéssemos o que somos capazes de fazer, ficaríamos literalmente surpresos."

Thomas Edison, inventor de inúmeras parafernalhas, entre elas, o gramofone e a lâmpada, tendo ainda papel importante na indústria do cinema, e que deve ter vivido em estado permanente de surpresa.

Next year

Ele levantou àquela manhã e fez tudo diferente. E só agiu daquela maneira porque estava cansado de ser subestimado. Na verdade, ele nem sabia ainda, mas acabava de ganhar uma nova vida.

Um filme

O homem conta histórias Mayrant, porque a vida é demasiada confusa para uma existência tão fugaz e sem fantasia. É por isso que nos permitimos inventar, mentir, explorar de todos os modos, todos os tipos de fuga da realidade de nossos cotidianos assustadoramente broxantes.

Significa dizer que escritores, dramaturgos, cineastas, atores (os enfim, contadores de histórias), estão tentando fugir da realidade de suas vidas? Ou incentivando os receptores da mensagem (nós) a fazê-lo (talvez os dois)? Apenas entretendo, ou sendo o motor propulsor da insatisfação que leva-nos em busca de uma outra realidade (quem sabe, possível, fé!), pro mundo e principalmente, pra nós (perguntas insensatas?)?

Duas observações:

O texto de Mayrant Gallo, publicado em seu blog, o Contramão (texto vibrante por sinal, significativo), lembrou-me da minha paixão implícita por cinema, assistirei mais filmes. 

Lembrei também de Federico Fellini quando afirma que "o cinema é o meio mais direto de entrar em competição com Deus" (não, não entrarei em nenhuma discussão pseudo filosófica sobre a existência d'Ele, foi apenas uma lembrança talvez não importante).

PS: Sem querer me estender, para não me tornar repetitivo, lembrei-me ainda de que viver é a glória suprema, e que, insatisfeitos ou não, somos abençoados, e podemos sim fazer da nossa vida (com todas as dificuldades e tropeços), um belíssimo filme.

[ página principal ] [ ver mensagens anteriores ]
Meu Perfil
BRASIL, Centro-Oeste, Homem, de 20 a 25 anos